Technology

/ Published on August 1, 2025

Saúde mental

Como a IA generativa está transformando o ambiente clínico

O que médicos e estudantes de saúde precisam saber sobre as novas soluções digitais para o cuidado em saúde mental

Author: Siddals, S., Torous, J. & Coxon, A

Fuente: Mental Health Res V.3, N. 48, 2024. “It happened to be the perfect thing”: experiences of generative AI chatbots for mental health

Problemas de saúde mental são uma causa importante e crescente de sofrimento em todo o mundo. Entretanto, o acesso aos cuidados permanece limitado; por exemplo, apenas 23% dos indivíduos que sofrem de depressão recebem tratamento adequado em países de alta renda, enquanto nos de baixa e média renda, esse número cai para apenas 3%.

As intervenções digitais de saúde mental (DMHIs) surgiram na última década como uma resposta potencial promissora à lacuna do acesso, aproveitando a tecnologia para fornecer tratamento de saúde mental de baixo custo, eficaz, sempre disponível e anônimo em grande escala. Normalmente entregues por meio de aplicativos móveis e sites, as DMHIs abrangem uma variedade de ferramentas, incluindo psicoeducação, rastreamento de humor, mindfulness, diário, apoio de pares e programas digitais de terapia cognitivo-comportamental (TCC). No entanto, as evidências da sua eficácia têm sido limitadas e o engajamento do usuário continua sendo um desafio persistente.

Os chatbots de inteligência artificial (IA) baseados em regras mostram-se promissores para abordar algumas dessas limitações, simulando a conversa humana usando scripts e algoritmos predefinidos, como árvores de decisão, para oferecer os benefícios das DMHIs de uma forma mais dinâmica e interativa. Por exemplo, dois chatbots populares, Woebot e Wysa, demonstraram melhorar os sintomas de depressão dos usuários e construir alianças terapêuticas que parecem comparáveis às formadas com terapeutas humanos. Mas, apesar desses resultados promissores, eles ainda não conseguem realizar todo o potencial das DMHIs. Meta-análises indicaram que os efeitos terapêuticos foram pequenos e não sustentados ao longo do tempo, e os usuários relataram frustração com respostas que pareciam vazias, genéricas, sem sentido, repetitivas e restritas.

Desenvolvimentos recentes em tecnologias de IA generativa, como modelos de linguagem (LLMs), apresentam novas possibilidades pois são treinados com grandes quantidades de dados, permitindo-lhes entender e gerar linguagem com notável proficiência. Entretanto, ainda há uma notável falta de pesquisa nesta área.

Por isso, com objetivo de fornecer insights sobre as implicações da aplicação desta nova tecnologia ao atendimento de saúde mental, Siddals e colaboradores (2024) desenvolveram um estudo qualitativo.

Eles recrutaram 19 participantes (12 homens e 7 mulheres) com idade entre 17 e 60 anos que residiram em oito países na Europa, América do Norte e Ásia, e eram principalmente asiáticos e caucasianos.

Vários tópicos levaram os participantes a usar chatbots de IA generativa, incluindo ansiedade, depressão, estresse, conflito, lidar com perdas e relacionamentos românticos. Dentre as plataformas usadas, pode-se citar: o Pi (da Inflection), ChatGPT (OpenAI), Copilot (Microsoft), Kindroid (Kindroid) e ChatMind (VOS). A maioria dessas foi usada várias vezes por semana.

A maioria dos participantes relatou que o uso de chatbots de IA generativa teve um impacto positivo em suas vidas, de várias maneiras, incluindo a melhora nos relacionamentos, a cura de traumas e perdas, a melhora do humor, bem como o auxílio em suas jornadas terapêuticas existentes. Apenas um participante relatou que o impacto foi insignificante.

A maioria dos participantes julgou os chatbots como compreensivos, validando o paciente, gentis, não julgadores, sempre disponíveis e não esperando nada em troca. Este 'santuário emocional' resultou em um impacto positivo na vida para a maioria dos participantes, como ajudar a lidar com momentos difíceis ou processar emoções dolorosas. Entretanto, a maioria também experimentou frustações com a forma em que a tecnologia ouve e responder, por exemplo, com respostas irrelevantes ou excessivamente longas.

A maioria dos participantes achou seu santuário emocional interrompido pelas "grades de proteção" do chatbot, ou seja, as medidas e os protocolos implementados para garantir que a IA forneça suporte seguro, ético e eficaz. Para alguns, a experiência foi desagradável, limitante e estranha, enquanto para outros, encontrar proteção parecia uma rejeição em um momento de necessidade.

Além de criar espaço para as emoções, a maioria dos participantes valorizou a orientação e os conselhos que receberam, especialmente sobre relacionamentos. Alguns mencionaram que isso os ajudou a ver a perspectiva da outra pessoa em conflito ou os treinou em situações de relacionamento difíceis. Outros mencionaram que o chatbot os ajudou a encontrar limites mais saudáveis e claros. Muitos participantes mencionaram ter recebido conselhos valiosos sobre outros tópicos de saúde mental, como autocuidado, reformulação, ansiedade e exaustão.

O nível de confiança na orientação do chatbot foi misto, com muitos participantes relatando ceticismo ou experimentando alucinação ou conselhos insatisfatórios. Enquanto outros afirmaram um alto nível de confiança geral em seu julgamento.

A companhia foi um tópico para a maioria dos usuários, com vários mencionando que isso os ajudou a se sentirem menos sozinhos. Alguns participantes mencionaram as vantagens dos chatbots em relação aos companheiros humanos, como a capacidade de se conectar em qualquer tópico ou mais segurança, mas também descobriram que isso os ajudava a se conectar com outras pessoas. Vários participantes também experimentaram aplicativos de saúde mental baseados em regras e comentaram como essa tecnologia ofereceu uma experiência de usuário menos satisfatória.

A maioria dos participantes compartilhou como suas experiências com chatbots de IA generativa contrastavam ou interagiam com a psicoterapia ou aconselhamento humano. Vários acharam útil complementar sua terapia com o uso de chatbot, com reações mistas do terapeuta em alguns casos. Outros recorreram a essa tecnologia porque a terapia não era uma opção, seja devido ao custo e disponibilidade, ou porque não lhes dava a ajuda que procuravam.  No entanto, para muitos, os chatbots de IA generativa não corresponderam à empatia e conexão humana. Ademais, diversos participantes consideraram o valor da IA limitado por sua incapacidade de assumir a liderança no processo terapêutico, seja para ajudar o cliente em emoções intensas, ou para moldar o processo e responsabilizar o cliente.

Liderar o processo terapêutico exigiria que os chatbots se lembrassem da conversa e construíssem um modelo interno de seu usuário, algo que a maioria dos usuários sente falta atualmente.

Em conclusão, os chatbots de IA generativa demonstram potencial para fornecer suporte significativo à saúde mental, com os participantes relatando alto engajamento, impactos positivos e experiências inovadoras em comparação com as DMHIs existentes. É necessário realizar mais pesquisas para explorar sua eficácia. Além disso, os desenvolvedores devem se concentrar em melhorar as proteções, as habilidades de escuta, a memória e a orientação terapêutica. Se esses desafios puderem ser resolvidos, os chatbots de IA generativa poderão se tornar uma parte escalável da solução para a lacuna no tratamento de saúde mental.