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/ Publicado el 22 de junio de 2025

Dermatoses em corredores

Como a corrida impacta a saúde dermatológica

Um guia prático para identificar, tratar e prevenir condições de pele em corredores

Autor/a: Ahomies, H. et al.

Fuente: JEADV Clinical Practice, V.4, Issue 2, Pg; 378-388. (2025) Skin Diseases in Long-Distance Runners

Introdução

A corrida se tornou uma forma popular de esporte. Essa atividade contribui positivamente para a saúde geral. No entanto, correr ao ar livre, em vários terrenos e por longas distâncias pode expor a pele a diferentes desafios. Por exemplo, a quantidade de radiação UV recebida durante o treino pode ser alta, aumentando o risco de câncer de pele nos atletas.

Problemas mecânicos de pele causados por atrito e trauma repetitivo são comuns entre os corredores, tornando essencial que os profissionais de saúde entendam as estratégias de prevenção eficazes para manter a saúde da pele e sustentar o desempenho. Abaixo, é apresentado um resumo das principais condições dermatológicas que afetam os corredores.

Transtornos de pele associados ao frio

Em clima frio, os corredores podem desenvolver xerose, queimadura superficial de frio, fenômeno de Raynaud, paniculite induzida pelo frio, frieiras e urticária. Além disso, quando também está seco, pode levar ao esgotamento dos óleos naturais da pele, levando a ressecamento, descamação, coceira e surtos de eczema.

Na queimadura superficial de frio, a pele parece pálida ou branca, pode ficar dormente ou com formigamento, e podem ocorrer bolhas após o reaquecimento.

Frieiras são lesões inflamatórias que ocorrem após a exposição a condições frias e úmidas. Os sintomas geralmente aparecem 12–24 horas após o evento desencadeante e são caracterizados por lesões ardentes, dolorosas e com coceira que afetam as extremidades. Elas comumente se manifestam como placas, nódulos ou pápulas inchadas e sensíveis com uma descoloração roxa.

A urticária ao frio é relativamente rara, podendo causar inchaço e coceira. Em casos graves, pode desencadear reações sistêmicas, como, dificuldade em respirar. Evitar o ar frio, usar roupas extras ou anti-histamínicos como medida preventiva pode ser recomendado para prevenir e tratar a doença.

Transtornos de pele associados ao calor

A exposição prolongada a um ambiente quente e o exercício podem sobrecarregar a capacidade do corpo de se resfriar, levando à exaustão. Tipicamente, a pele depende de umidade suficiente, tanto da hidratação interna quanto de fatores externos. No entanto, quando o corpo perde fluidos através da transpiração, torna-se difícil manter a hidratação, fazendo com que a pele fique seca, escamosa e mais propensa a irritações.

A urticária colinérgica (UC) é relacionada à elevação da temperatura central do corpo e se apresenta com inúmeras pequenas pápulas urticariformes. Elas geralmente aparecem logo após o exercício, primeiro no tronco e no pescoço, e depois se espalham distalmente. Tomar anti-histamínicos antes da corrida pode ajudar a prevenir as crises dessa doença. Além disso, o resfriamento rápido durante ou após o exercício pode ser útil. Em casos graves, o uso de ciclosporina, mofetil de micofenolato, metotrexato ou omalizumabe pode ser considerado.

Radiação ultravioleta (UV)

Corredores que treinam ao ar livre enfrentam o perigo adicional da exposição prolongada ao sol. Os padrões de exposição podem variar de sessões intermitentes que induzem queimaduras solares nos horários de pico a uma exposição cumulativa ao longo do tempo.

Complicações agudas relacionadas aos raios UV incluem queimaduras solares, fitofotodermatoses e outras fotodermatoses, como fotorreação induzida por medicamentos ou, mais raramente, urticária solar. As recorrências de herpes labial podem ocorrer após a exposição a altos níveis de luz solar. Além disso, a exposição repetida ao sol aumenta o risco de desenvolver lentigos solares, lesões pré-cancerosas e cânceres de pele. Ademais, a exposição crônica ao sol pode acelerar o envelhecimento da pele, contribuindo para pigmentação irregular, rugas e flacidez da pele.

A urticária solar ocorre logo após a exposição aos raios solares. Normalmente, aparece durante o final da primavera e o início dos meses de verão. O tratamento geralmente envolve anti-histamínicos e proteção solar. Para sintomas refratários, a hidroxicloroquina pode ser considerada.

É importante que os médicos recomendem o uso de roupas de proteção e protetor solar, bem como orientem aos pacientes a considerarem o horário, a intensidade e a duração das sessões de corrida. Ademais, o suor e o atrito diminuem a eficácia dos protetores solares, por isso, a reaplicação é importante. No entanto, neste grupo, vários fatores para não usar protetor solar foram identificados, como sensação oleosa, irritação nos olhos, o tempo necessário para aplicá-lo, esquecimento e preocupações sobre causar acne. Sprays, géis e loções de protetor solar à base de álcool são mais leves do que os cremes e são mais bem tolerados pelos corredores, sendo assim, devem ser considerados para aumentar a adesão.

Distúrbios traumáticos e mecânicos da pele

A pele está constantemente sujeita a traumas durante a corrida. Fricção e pressão muitas vezes levam a traumas na pele, como abrasões, assaduras, calos, bolhas e talon noir (ou calcanhar negro). Muitas dermatoses traumáticas estão relacionadas ao equipamento ou condições específicas de corrida.

Ademais, correr longas, com meias molhadas /ou em declive predispõem a pele dos pés a lesões traumáticas. Anomalias nas unhas também são comuns, incluindo distrofias, hiperceratose, hematomas subungueais e unhas encravadas.

As bolhas de fricção são uma lesão dentro da epiderme, especificamente no estrato espinhoso e comumente observada em corridas de longas distâncias. Embora a compreensão tradicional de sua formação se concentra no calor e umidade, as bolhas resultam principalmente da deformação repetitiva do cisalhamento da pele. Para sua prevenção, as evidências atuais apoiam o uso de meias acrílicas densamente acolchoadas, palmilhas de neoprene e estratégias que promovem mudanças adaptativas na pele, incluindo familiaridade com a atividade e os tênis de corrida. Caso a apresentação for atípica, os médicos devem considerar condições mais raras, como epidermólise bolhosa.

Assaduras são uma dermatite inflamatória superficial que ocorre quando áreas da pele se esfregam repetidamente. A fricção causa a separação da camada de queratina da subcamada granular na epiderme, resultando em uma lesão inflamada e exsudativa.

A púrpura induzida por exercício é uma forma específica de vasculite cutânea benigna, isolada e de resolução espontânea. Ela se apresenta como uma erupção eritematosa, pseudo-urticariforme ou purpúrica, geralmente sem infiltração, confinada exclusivamente aos membros inferiores após esforço prolongado e incomum em clima particularmente quente.

O calcanhar negro é uma condição assintomática mais vista em corredores jovens. É tipicamente caracterizado por máculas assimétricas marrons ou preto-azuladas nas faces posterior, medial ou lateral do calcanhar, mas também pode ser encontrado na planta do pé e nos dedos. É causado por sangramento intraepidérmico devido a forças de cisalhamento lateral, onde a epiderme desliza sobre as cristas interpapilares da derme papilar, danificando os capilares. Resolve-se em duas a três semanas evitando atividades esportivas ou qualquer tipo de trauma repetitivo. Usar sapatos bem acolchoados, meias grossas e lubrificar a pele pode ajudar a reduzir a incidência.

Pápulas piezogênicas são pequenas hérnias de gordura que aparecem na pele, geralmente nos pés e nos tornozelos. Elas são tipicamente vistas em corredores de longa distância. Embora geralmente assintomáticas, elas podem ocasionalmente ser dolorosas. Não existe um tratamento específico, mas as almofadas de calcanhar podem ajudar a aliviar os sintomas.

Calos e calosidades são áreas hipertróficas que se desenvolvem como uma resposta protetora ao atrito repetitivo sobre proeminências ósseas dos pés e dedos. Os calos podem ser diferenciados das calosidades por seus núcleos hiperceratóticos e geralmente são dolorosos. Eles não mostram hemorragias pericapilares, o que permite distingui-los das verrugas virais. Podem ser tratados aplicando preparações tópicas de ácido salicílico ou ureia, ou mergulhando os pés em água morna por vários minutos e, em seguida, raspando mecanicamente as lesões.

Unhas do corredor são resultado do impacto constante dos dedos contra a parte da frente do sapato. As suas alterações incluem hemorragia subungueal, descoloração das unhas, onicólise e sulcos transversais proximais. O diagnóstico diferencial inclui onicomicose e melanoma maligno. Não é necessário um tratamento específico, no entanto, a recuperação pode demorar. Os corredores devem usar tênis de treino com uma biqueira adequada e um ajuste adequado no meio do pé.

Dermatite de contato irritativa

A dermatite de contato irritativa (DCI) ocorre rapidamente após a exposição e é frequentemente causada por atrito, suor e contato com vários equipamentos, bem como umedecimento e secagem repetidos da pele. As lesões geralmente são bem demarcadas e ocorrem nas áreas de contato. Ela se resolve quando o sensibilizante de contato é evitado.

Infecções da pele

Umidade, transpiração, calor, sol, frio, maceração, trauma e higiene precária ou excessiva são fatores que promovem a transmissão de infecções virais, bacterianas ou fúngicas da pele.

Corredores têm um risco elevado de tinea pedis, já que os dermatófitos prosperam em condições de sudorese e maceração dentro de calçados oclusivos. Trichophyton rubrum e T. mentagrophytes são as espécies mais comumente envolvidas.

A queratólise plantar sulcada é uma infecção bacteriana superficial da pele que afeta as solas dos pés. Apresenta-se com hiperidrose e mau odor. O tratamento envolve abordar a maceração e a umidade (por exemplo, manter os pés secos, meias de algodão absorventes, ventilar os tênis por 24 horas ou alternar com diferentes pares de sapatos, antitranspirantes tópicos) e aplicar tratamentos antibióticos locais.

Impacto dos tratamentos dermatológicos no treino

Dermatologistas devem estar cientes de que os tratamentos para condições cutâneas podem ter efeitos colaterais não intencionais que podem influenciar o desempenho físico do paciente. Por exemplo, a isotretinoína pode ter efeitos significativos no sistema musculoesquelético com dor muscular, dor nas articulações ou dor nas costas. Anti-histamínicos podem causar sonolência, letargia, prejudicar a coordenação e os níveis gerais de energia durante os treinos ou corridas. Antibióticos, como as ciclinas, podem ser responsáveis pelo aumento da fotossensibilidade. A prescrição de corticosteroides locais pode precisar ser relatada a órgãos reguladores atléticos para evitar preocupações com doping.

Conclusão

Em resumo, corredores enfrentam inúmeros desafios dermatológicos. Eles são particularmente propensos a condições relacionadas ao atrito, como bolhas e assaduras. A exposição prolongada ao sol também os coloca em risco de danos à pele relacionados aos raios UV. Medidas preventivas, incluindo o uso de calçados adequados, roupas que absorvem a umidade e a aplicação de pomadas para reduzir o atrito, são essenciais. Além disso, aumentar a conscientização e tornar a proteção solar mais prática a eles pode ajudar a mitigar os riscos de longo prazo para a saúde da pele.

Profissionais de saúde devem estar cientes dessas condições comuns de pele e da importância dos cuidados proativos para manter a saúde geral e o desempenho atlético.