Entrevistas

Publicado el 7 de noviembre de 2024

Opinião de especialistas

Combate à resistência antimicrobiana

Especialistas em saúde de economias emergentes descreveram abordagens para o problema de forma mais eficaz em seu país ou região

No mês passado, em setembro de 2024, líderes mundiais se reuniram na 79ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas para debater a crescente ameaça da resistência de bactérias, fungos e protozoários aos medicamentos antimicrobianos. Antes da sessão, quatro especialistas compartilharam com a revista Nature suas perspectivas sobre as mudanças mais críticas necessárias em suas respectivas regiões para enfrentar esse problema global.

Saha Senjuti: Bangladesh

Senjuti Saha vê a necessidade de um compromisso global para apoiar a coleta de dados sobre resistência. Imagem adaptada de Saha, S. et al. (2024).

Por mais de uma década, Saha Senjuti tem observado de perto o impacto devastador da resistência antimicrobiana (RAM), especialmente entre recém-nascidos. No Bangladesh Shishu Hospital and Institute, seis em cada dez bebês com infecções causadas pela bactéria multirresistente Klebsiella pneumoniae morrem, muitas vezes poucos dias após a infecção.

Um dos principais desafios no combate à RAM no país é a falta de dados confiáveis sobre quais bactérias estão infectando as pessoas, como diferentes cepas respondem aos antibióticos e como as decisões sobre tratamentos são tomadas. Devido à limitação e ao viés nos dados disponíveis, muitos acreditam que a resistência é onipresente, levando médicos a prescreverem antibióticos de última geração, mesmo quando os de primeira geração ainda podem ser eficazes. "Isso, por si só, pode estar agravando a resistência", alertou Saha.

Ela também destacou a ausência de protocolos e intervenções básicas na área de saúde, que, se implementadas, poderiam melhorar significativamente a situação. No Shishu, a estratégia mais eficaz para salvar vidas é prevenir que as infecções ocorram. Investir na nutrição das gestantes, o que resultaria em bebês com peso adequado ao nascer e menos suscetíveis a infecções, garantir cuidados pré-natais e perinatais de qualidade, e adotar práticas de parto que minimizem o risco de infecções para mães e bebês são algumas das intervenções prioritárias.

Saha concluiu enfatizando a necessidade de um compromisso global para apoiar a pesquisa e a coleta de dados sobre RAM, além de investimentos em intervenções simples, mas fundamentais, que podem reduzir significativamente a resistência antimicrobiana.

Ana Cristina Gales: Brasil

Ana Cristina Gales acredita que mesmo pequenas mudanças podem ser transformadoras para o Brasil. Imagem adaptada de Saha, S. et al. (2024).

Cinco anos atrás, Ana Cristina, especialista em doenças infecciosas, atendeu um garoto de 15 anos que desenvolveu uma grave infecção sistêmica após cortar o tornozelo ao tentar recuperar uma pipa em um riacho. A infecção, causada por Staphylococcus aureus resistente à meticilina, resultou na morte do paciente após cinco semanas internado.

Ana tem vasta experiência com os impactos da resistência antimicrobiana em hospitais no Brasil. Os problemas mais comuns incluem a dificuldade da equipe em manter superfícies e mãos limpas, além da incapacidade de isolar adequadamente os pacientes infectados por bactérias resistentes. A superlotação hospitalar, com pacientes aguardando por leitos nos corredores, agrava a situação, dificultando o controle e prevenção de infecções.

Estudos das últimas duas décadas mostraram que bactérias resistentes são transferidas entre instituições hospitalares, possivelmente através da movimentação de pacientes. Um grande desafio no Brasil é a falta de conscientização sobre a RAM como um problema de saúde pública.

Por outro lado, o Brasil tem um enorme potencial para combater a RAM devido ao seu sistema de saúde universal e descentralizado, que facilita o acesso a intervenções médicas. Nas últimas décadas, o país fez avanços significativos, como a regulamentação da venda de antibióticos com receita médica desde 2010 e o investimento em pesquisa e vigilância da RAM. Medidas simples, como aumentar a vacinação infantil, evitar o uso indevido de antimicrobianos para tratar infecções virais e expandir o saneamento básico, podem trazer mudanças significativas no controle da RAM.

Iruka Okene: Nigéria

O acesso melhorado aos cuidados de saúde pode ajudar a reduzir a resistência antimicrobiana, disse Iruka Okeke. Imagem adaptada de Saha, S. et al. (2024).

Na Nigéria, a maioria das pessoas enfrenta pelo menos uma infecção bacteriana grave ou malária a cada ano, o que gera uma demanda real e percebida por antimicrobianos. No entanto, como relatou Iruka Okene, o acesso a esses medicamentos é limitado, e muitos acabam usando-os sem orientação adequada de profissionais de saúde. "Melhorar o acesso a cuidados médicos e medicamentos é essencial para qualquer plano de combate à resistência antimicrobiana na Nigéria", enfatizou a especialista.

Um desafio significativo no país é o saneamento precário. Cerca de um quarto da população ainda defeca ao ar livre, e muitas áreas urbanas dependem de fontes de água contaminadas, como poços e furos, o que facilita a disseminação de doenças como febre tifoide, diarreia e cólera. Além disso, microrganismos comensais, como Escherichia coli, presentes no intestino humano, podem abrigar genes de resistência que são transferidos para bactérias patogênicas. Melhorar o acesso à água potável e ao saneamento básico pode reduzir tanto as infecções entéricas quanto a RAM.

Investimentos modestos também poderiam fortalecer as práticas de prevenção e controle de infecções nas unidades de saúde, promovendo medidas simples como a lavagem das mãos e o isolamento de pacientes com infecções resistentes. Em 2017, a Nigéria lançou um sistema de vigilância de RAM. À medida que esse sistema se expandir para cobrir uma área geográfica maior e incluir dados mais completos — de humanos, animais e do meio ambiente — será possível quantificar melhor o impacto das intervenções e definir prioridades para uma implementação nacional eficaz.

Nour Shamas: Oriente Médio

Os esforços de ajuda humanitária devem priorizar a vigilância de infecções, disse Nour Shamas. Imagem adaptada de Saha, S. et al. (2024).

Os efeitos da instabilidade política, econômica e dos conflitos são frequentemente negligenciados ao se considerar os fatores que contribuem para a resistência antimicrobiana. No entanto, em países como o Líbano e outros da região do Mediterrâneo Oriental, que enfrentam conflitos contínuos, implementar intervenções para mitigar a resistência, como a restrição na venda de antimicrobianos sem receita, torna-se muito mais difícil.

A destruição de hospitais, escolas e outras infraestruturas essenciais, além do deslocamento de populações locais e refugiados, cria um ambiente propício para o aumento da RAM. Muitas pessoas perderam o acesso à água potável, saneamento, assistência médica, medicamentos e vacinas. A perda de salários e a dificuldade de garantir uma nutrição adequada também aumentam a probabilidade de uso inadequado de antimicrobianos.

Nour sugeriu que, embora investimentos globais sejam necessários para mitigar a RAM, os financiadores e organizações de ajuda humanitária devem considerar a resistência antimicrobiana em seus esforços de auxílio. Pesquisas específicas são necessárias para entender o impacto da RAM em comunidades afetadas por conflitos, bem como soluções adaptadas a esses contextos. Além disso, é crucial destinar mais recursos para melhorar as cadeias de suprimento de antimicrobianos e ferramentas de diagnóstico, promovendo seu uso adequado. A vigilância, o controle de infecções e os sistemas de saúde em geral precisam ser fortalecidos nessas regiões para conter o avanço da RAM.