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Publicado el 17 de abril de 2026

Cirurgia de catarata avança no mundo, mas desigualdades ainda limitam o acesso de milhões de pessoas

Pesquisa internacional indicou que metas da OMS para 2030 estão distantes, apesar dos avanços no acesso cirúrgico.

Autor/a: Hugo Carcci

Fuente: Jornal da USP

Apesar dos avanços observados nas últimas décadas, milhões de pessoas seguem convivendo com deficiência visual causada pela catarata, a principal causa de cegueira evitável no mundo. Um estudo internacional recente apontou que, embora a cirurgia de catarata seja um procedimento seguro, eficaz e altamente custo-efetivo, o ritmo atual de expansão do acesso e da qualidade dos resultados está abaixo do necessário para atingir as metas globais estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A OMS definiu como objetivo um aumento de 30% na cobertura e na qualidade efetiva da cirurgia de catarata até 2030. No entanto, de acordo com estimativas do estudo, publicado na revista The Lancet Global Health, o crescimento projetado entre 2020 e 2030 é de apenas 8,4 pontos porcentuais, um desempenho muito inferior ao esperado.

A análise evidencia profundas desigualdades no acesso ao tratamento, tanto entre países de diferentes níveis de renda quanto entre grupos populacionais dentro de uma mesma região. Em países de alta renda, a oferta do procedimento é mais ampla, estruturada e integrada aos sistemas de saúde. Já em regiões de baixa e média renda, persistem barreiras significativas, como escassez de oftalmologistas, limitação de serviços especializados e custos que dificultam o acesso da população mais vulnerável.

O trabalho reuniu dados de 233 estudos populacionais realizados em 68 países, no período de 2003 a 2024. A maior parte da amostra foi composta por adultos com 50 anos ou mais, incluindo indivíduos com diferentes graus de comprometimento visual. A diversidade geográfica dos dados permitiu uma avaliação abrangente das disparidades globais no acesso à cirurgia de catarata.

Segundo João Marcello Furtado, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e um dos pesquisadores envolvidos, o principal objetivo da pesquisa foi medir, de forma padronizada e comparável entre países, se as pessoas que necessitam da cirurgia estão conseguindo realizá-la e, principalmente, se estão alcançando bons resultados visuais após o procedimento.

As informações foram obtidas a partir do Global Vision Database, além de contatos diretos com pesquisadores para acesso a bases de dados individuais. Para garantir comparabilidade, os autores adotaram uma definição uniforme de cobertura cirúrgica efetiva de catarata, baseada tanto na indicação adequada da cirurgia quanto no resultado visual pós-operatório. As estimativas passaram por ajustes por idade e gênero, priorizando dados mais recentes e representativos de cada país.


Avanços insuficientes e desigualdades persistentes

Os resultados mostraram que houve progresso gradual na cobertura efetiva desde os anos 2000, impulsionado por fatores como a expansão da oferta cirúrgica, maior organização dos programas de saúde ocular, padronização de indicadores, fortalecimento de iniciativas nacionais e regionais de combate à cegueira evitável e avanços na formação de profissionais e na capacidade cirúrgica.

Ainda assim, os autores destacaram que esse crescimento é insuficiente para alcançar as metas globais. A distância entre países ricos e pobres permanece expressiva, refletindo desigualdades estruturais nos sistemas de saúde e nas condições socioeconômicas das populações atendidas.

Outro achado relevante do estudo é a disparidade de acesso entre homens e mulheres. Em diversos países, as mulheres apresentaram menor probabilidade de realizar a cirurgia de catarata. De acordo com Furtado, essa diferença está associada a fatores estruturais, como maior dependência econômica, menor autonomia para buscar cuidados de saúde, dificuldades de mobilidade, maior carga de trabalho doméstico e menor prioridade para procedimentos eletivos dentro do núcleo familiar.

Qualidade do cuidado é ponto crítico

Além do acesso, o estudo chama atenção para a qualidade da assistência ao longo de toda a linha de cuidado. De acordo com os pesquisadores, ampliar o número de cirurgias não é suficiente se os resultados visuais não forem adequados. Falhas no acompanhamento pós-operatório, na correção refrativa e no manejo de complicações contribuem significativamente para desfechos insatisfatórios.

Um dos principais fatores associados à baixa qualidade visual após a cirurgia foi o erro refrativo residual, responsável por cerca de 26,4% dos resultados considerados inadequados. Esse dado sugere que intervenções relativamente simples, como melhor refração pós-operatória e oferta de correção óptica, poderiam ampliar de forma relevante a cobertura cirúrgica efetiva.

“A diferença entre cobertura cirúrgica total e cobertura cirúrgica efetiva mostra que parte dos pacientes até chega à cirurgia, mas não alcança o benefício visual esperado”, avalia o pesquisador.

Próximos passos: medir melhor e cuidar melhor

Para os autores, o desafio agora vai além de descrever o problema em termos globais. As próximas etapas da pesquisa incluem a ampliação da base de dados, especialmente em países ainda pouco representados, e uma análise mais aprofundada da qualidade do cuidado em cada etapa do atendimento — do diagnóstico ao acompanhamento pós-cirúrgico.

“Em termos práticos, o foco passa a ser identificar onde, em cada contexto, a linha de cuidado está falhando e quais estratégias podem corrigi-la”, conclui Furtado.

Enquanto isso, o estudo reforça uma mensagem central para gestores e profissionais de saúde: a cirurgia de catarata segue sendo uma das intervenções mais custo-efetivas da medicina moderna, mas atingir seu pleno impacto exige não apenas ampliar o acesso, e sim garantir qualidade, equidade e continuidade do cuidado.


Fonte: Acesso mundial à cirurgia de catarata avança, mas milhões ainda estão sem tratamento – Jornal da USP