Articles

/ Published on October 10, 2024

Uma análise sistemática

Carga global da resistência bacteriana aos antibióticos

A resistência antimicrobiana representa um importante desafio global à saúde no século XXI

Introdução

A resistência antimicrobiana (RAM) é uma ameaça global que projeta causar mais de 10 milhões de mortes até 2050. Atualmente, torna-se crucial identificar as regiões com aumento significativo de RAM, para que a comunidade global de saúde possa direcionar seus esforços para os locais com maior necessidade. Além disso, documentar a evolução da RAM, especialmente as tendências de resistência a classes críticas de antibióticos, como os carbapenêmicos, é essencial para orientar a administração adequada de antimicrobianos, implementar medidas de prevenção de infecções e priorizar o desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas para enfrentar essa ameaça crescente.

A caracterização de tendências e a produção de previsões baseadas em cenários alternativos de intervenção são fundamentais para entender melhor a dinâmica da RAM e informar as prioridades de pesquisa e políticas de saúde pública nas próximas décadas. Nesse contexto, Naghavi e colaboradores (2024) apresentaram, por meio de um estudo, as primeiras estimativas globais e regionais de mortalidade por RAM nas últimas três décadas (1990-2021), abrangendo 22 patógenos e 16 classes de antimicrobianos. O estudo também forneceu previsões da carga futura de RAM e avaliou o impacto de diferentes cenários de intervenção, utilizando dados do Estudo da Carga Global de Doenças, Lesões e Fatores de Risco (GBD).

Métodos

Para esta análise, foram estimadas as mortes por todas as faixas etárias, além dos anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs) atribuíveis e associados à resistência antimicrobiana bacteriana, abrangendo 22 patógenos em 204 países e territórios entre 1990 e 2021. Os dados foram coletados de diversas fontes, incluindo causas múltiplas de morte, registros de alta hospitalar, dados de microbiologia, estudos da literatura, perfis individuais de resistência a medicamentos, vendas farmacêuticas, pesquisas sobre o uso de antibióticos, vigilância de mortalidade, dados de vinculação, reivindicações de seguros hospitalares e ambulatoriais, além de dados publicados anteriormente.

Utilizou-se modelagem estatística para gerar estimativas da carga de RAM em todos os locais, inclusive em regiões sem dados disponíveis. Esta abordagem envolveu a consideração de vários fatores, como o número de mortes por sepse, a proporção de mortes infecciosas atribuídas a uma síndrome infecciosa específica, a de mortes por síndrome infecciosa relacionadas a um patógeno específico, a porcentagem de resistência desse patógeno a um antibiótico de interesse e o risco excessivo de morte ou prolongamento da infecção devido à resistência. Esses componentes foram fundamentais para calcular a carga de doença atribuível e associada à RAM, utilizando dois cenários contrafactuais como base para a análise.

Resultados

Em 2021, estimou-se que 4,71 milhões de mortes (95% UI 4,23–5,19) estavam associadas à resistência antimicrobiana bacteriana, incluindo 1,14 milhões (1,00–1,28) diretamente atribuíveis à RAM. As tendências da mortalidade nos últimos 31 anos variaram significativamente por faixa etária e região. De 1990 a 2021, houve uma redução de mais de 50% nas mortes por RAM entre crianças menores de 5 anos, enquanto entre adultos com 70 anos ou mais, o aumento foi superior a 80%.

Globalmente, o Staphylococcus aureus resistente à meticilina foi o patógeno que mais contribuiu para o aumento de mortes associadas e atribuíveis à RAM. As relacionadas a essa bactéria subiram de 261 mil (95% UI 150 mil–372 mil) em 1990 para 550 mil (500 mil–600 mil) em 2021, enquanto as atribuíveis aumentaram de 57,2 mil (34,1 mil–80,3 mil) para 130 mil (113 mil–146 mil) no mesmo período. Entre as bactérias Gram-negativas, a resistência aos carbapenêmicos apresentou o maior crescimento em termos de mortalidade, passando de 619 mil mortes associadas (405 mil–834 mil) em 1990 para 1,03 milhão (909 mil–1,16 milhão) em 2021, e de 127 mil mortes atribuíveis (82,1 mil–171 mil) em 1990 para 216 mil (168 mil–264 mil) em 2021.

Um fato relevante foi a diminuição das mortes por doenças infecciosas não relacionadas à COVID-19 em 2020 e 2021. No entanto, as projeções indicam que, até 2050, poderão ocorrer globalmente cerca de 1,91 milhão (1,56–2,26) de mortes atribuíveis à RAM e 8,22 milhões (6,85–9,65) de mortes associadas. As regiões com maior taxa de mortalidade por RAM projetada para 2050 são o sul da Ásia e a América Latina e o Caribe. O aumento nas mortes atribuíveis à RAM será mais acentuado entre pessoas com 70 anos ou mais, representando 65,9% (61,2–69,8) de todas as mortes atribuíveis à RAM.

Embora se espere um aumento de 69,6% (51,5–89,2) nas mortes por RAM de 2022 a 2050, o aumento projetado no número de DALYs (anos de vida ajustados por incapacidade) será menor, com uma elevação de apenas 9,4% (–6,9 a 29,0), atingindo 46,5 milhões (37,7 a 57,3) de DALYs em 2050. No melhor cenário de atendimento, poderiam ser evitadas cumulativamente 92 milhões de mortes (82,8–102,0) entre 2025 e 2050, com a melhora no tratamento de infecções graves e maior acesso a antibióticos. Além disso, o desenvolvimento de medicamentos eficazes contra bactérias Gram-negativas poderia prevenir 11,1 milhões de mortes por RAM (9,08–13,2) nesse mesmo período.

Conclusão

Em conclusão, o estudo apresentou a primeira avaliação abrangente da carga global da resistência antimicrobiana entre 1990 e 2021, com previsões até 2050. A análise das tendências de mortalidade por RAM ao longo do tempo e em diferentes regiões é crucial para compreender o desenvolvimento dessa ameaça global à saúde e guiar a implementação de intervenções eficazes. Os achados destacaram a importância de estratégias de prevenção de infecções, como evidenciado pela redução das mortes por RAM em crianças menores de 5 anos. Ao mesmo tempo, ressaltaram a preocupante escalada da RAM entre pessoas com 70 anos ou mais, especialmente em uma população mundial que está envelhecendo rapidamente.

Dada a variação significativa na carga de RAM por região e idade, é fundamental que as intervenções combinem múltiplas abordagens, incluindo prevenção de infecções, vacinação, redução do uso inadequado de antibióticos na agricultura e em humanos, além de investimentos em pesquisas para o desenvolvimento de novos antimicrobianos. Por fim, essas ações coordenadas são essenciais para mitigar o impacto das mortes por RAM projetadas para 2050.