| Introdução |
Quase metade da população australiana sofre de problemas de saúde crônicos, com uma estimativa de 3,6 milhões de pessoas vivendo com dor crônica, 3,3 milhões com transtornos de ansiedade e 1,5 milhão com distúrbios do sono, todos impactando negativamente sua Qualidade de Vida Relacionada à Saúde (QVRS). A pesquisa sobre os benefícios terapêuticos da cannabis medicinal (CM) aumentou desde a descoberta das suas propriedades analgésicas e foi impulsionada por crescentes preocupações com o uso indevido de opioides e seus eventos adversos.
Considerado o padrão ouro para avaliar a dor, o resultado relatado pelo paciente (RRP) é qualquer exposição sobre o estado de saúde que vem diretamente dos pacientes, e é importante ao avaliar o impacto de novos tratamentos para problemas de saúde crônicos. A QVRS é um RRP que engloba o impacto geral da doença ou tratamento em áreas como função física, emocional, social e cognitiva, bem como desconforto corporal e sintomas como dor. Para melhor informar a regulamentação e a formulação de políticas, são necessárias evidências de pacientes que receberam prescrição de CM na prática clínica para avaliar a mudança na QVRS e outros RRPs no mundo real.
A iniciativa QUEST (QUality of life Evaluation STudy - Estudo de Avaliação da Qualidade de Vida) avaliou a QVRS relatada pelo paciente, dor, fadiga, distúrbio do sono, ansiedade, depressão e função motora em pacientes com problemas de saúde crônicos que receberam prescrição de CM na Austrália. Os resultados de curto prazo descobriram que, nos primeiros três meses de terapia, os participantes relataram melhorias clinicamente significativas na QVRS, fadiga e distúrbio do sono, e em problemas de saúde associados à ansiedade, depressão e dor. Entretanto, nenhuma avaliação de longo prazo foi realizada. Por isso, Tait e colaboradores (2025) avaliaram dados de acompanhamento de doze meses para determinar se essas melhorias relatadas anteriormente foram mantidas.
| Métodos |
O estudo QUEST, prospectivo multicêntrico, recrutou pacientes adultos com qualquer condição de saúde crônica que receberam prescrição recente de óleo de CM entre novembro de 2020 e dezembro de 2021. Os participantes preencheram questionários validados no início do estudo, após 2 semanas de titulação e nos acompanhamentos de 1, 2, 3, 5, 7, 9 e 12 meses.
| Resultados |
Dos 3.302 pacientes elegíveis convidados por 114 médicos, 2.744 (83%) deram consentimento e preencheram os PROMs (Patient-Reported Outcome Measures - Medidas de Resultados Relatados pelo Paciente) iniciais e informações demográficas. Destes, 2.353 (86%) completaram pelo menos um PROM de acompanhamento e foram incluídos na análise.
Os participantes tinham entre 18 e 97 anos (média de 50,4 anos;), 62,8% eram mulheres, 37,4% tinham ensino superior e mais de um quarto estava desempregado, de licença ou com tarefas de trabalho limitadas, devido à sua saúde debilitada.
Metade dos participantes recebeu prescrição de CM para mais de uma condição, sendo a maioria para dor crônica musculoesquelética. Outras condições comuns incluíram dor neuropática, insônia, ansiedade e transtorno depressivo e ansioso misto. Dentre os participantes, noventa tinham um diagnóstico de câncer, dos quais apenas 28 receberam prescrição de CM para dor relacionada ao câncer.
No início do estudo, dois terços dos participantes (1.621/2.353) estavam tomando medicamentos que não eram CM regularmente para controlar sua condição, dos quais 30% eram opioides. Durante o estudo, 47% relataram que, devido ao uso de CM, reduziram o uso de pelo menos um de seus outros medicamentos prescritos para controlar seus sintomas. Desses, 48% pararam completamente de tomar um ou mais medicamentos devido ao uso de CM. Ao final do período de acompanhamento de 12 meses, 70% haviam reduzido ou interrompido seus medicamentos opioides.
Melhorias clinicamente significativas foram observadas na qualidade de vida:
· O índice EQ-5D-5L, que mede a qualidade de vida na mobilidade, autocuidado, atividades habituais, dor/desconforto e ansiedade/depressão, demonstrou melhora ao longo do tempo.
· O questionário QLQ-C30, que mede as funções físicas, psicológicas e sociais de pacientes com câncer, também mostrou melhora ao longo dos doze meses de acompanhamento.
· A fadiga e os distúrbios de sono também foram menos relatados pelos pacientes ao longo do acompanhamento.
· Os participantes com dor crônica relataram melhora em sua intensidade.
· Houve melhora significativa na ansiedade e na depressão.
· Entretanto, não houve melhora na função motora em pacientes com distúrbios do movimento.
| Conclusão |
Resultados de longo prazo indicaram que pacientes que receberam prescrição de CM na prática tiveram melhora na QVRS e redução da fadiga. Aqueles com diagnósticos de ansiedade, depressão, insônia ou dor crônica também apresentaram melhora nos sintomas específicos da condição ao longo de 12 meses. Não foram encontradas evidências conclusivas de melhora da função motora em pacientes com distúrbios do movimento. Pacientes tratados exclusivamente para ansiedade generalizada, dor crônica, insônia e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) mostraram melhora na QVRS.