A candidíase vulvovaginal não complicada (CVV) está entre as infecções fúngicas ginecológicas de maior prevalência global, acometendo aproximadamente 75 % das mulheres em idade reprodutiva ao menos uma vez ao longo da vida. Embora se trate de um quadro geralmente benigno, seus sintomas como prurido intenso, corrimento e desconforto afetam significativamente o bem-estar e a qualidade de vida das pacientes. No cotidiano clínico, existem múltiplas classes de antifúngicos, em formulações tópicas ou orais e em esquemas de dose única ou prolongadas. Entretanto, ainda não há um consenso sobre qual regime terapêutico otimiza simultaneamente a eficácia clínica e a erradicação micológica.
Diante dessa lacuna, Gardella e colaboradores (2025) conduziram uma meta-análise em rede de 50 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 7.208 participantes, com objetivo de comparar diferentes estratégias terapêuticas para CVV. Os autores avaliaram as taxas de cura clínica e micológica em fases precoce (7–10 dias) e tardia (24–35 dias), segundo a via de administração (tópica ou oral) e a duração do tratamento (dose única ou múltiplos dias).
Em comparação ao placebo, todos os tratamentos avaliados mostraram eficácia acima de 75 % na cura clínica e micológica da candidíase vulvovaginal. Além disso, o uso único de 150 mg de fluconazol foi ligeiramente superior à terapia tópica de múltiplos dias na cura clínica precoce. Na avaliação da cura clínica tardia, não houve diferenças significativas nos odds ratios de sucesso entre os tratamentos orais e tópicos, seja em dose única ou prolongada. A dose única de fluconazol também se mostrou marginalmente superior ao tratamento tópico de múltiplos dias na cura micológica tardia. Na classificação por SUCRA ( Surface Under the Cumulative Ranking Curve, ou Superfície sob a Curva de Ranking Cumulativo é uma medida estatística usada em meta-análises em rede para comparar e classificar múltiplos tratamentos), o fluconazol oral em dose única obteve a maior probabilidade de cura micológica precoce, com 74,1 %, e tardia, com 84,2 %. Em comparação, o itraconazol em múltiplos dias liderou o alívio de sintomas, na fase precoce em relação a fase tardia, com taxas de 99 % e 75,7 %, respectivamente.
Em síntese, apesar da alta eficácia tanto dos antifúngicos orais quanto dos tópicos, o estudo demonstrou que estabelecer uma hierarquia rígida entre os regimes terapêuticos para candidíase vulvovaginal não complicada provavelmente não é adequado. Ainda assim, as diretrizes devem reconhecer que os azóis orais apresentam maior probabilidade de sucesso clínico e erradicação microbiológica de Candida em comparação com as formulações tópicas.