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/ Publicado el 15 de mayo de 2022

Estudo brasileiro

Bebês nascidos com síndrome congênita associada à infecção pelo vírus Zika têm maior risco de morte nos primeiros três anos de vida

Estudo destacou a necessidade urgente de que as mulheres em idade fértil utilizem medidas de profilaxia de picadas de insetos buscando um melhor perfil obstétrico

Autor/a: Enny S. Paixao, Luciana L. Cardim et al.

Fuente: Mortality from Congenital Zika Syndrome Nationwide Cohort Study in Brazil

Introdução

A infecção pelo zika vírus é disseminada pelo mosquito Aedes aegypti, e durante a gravidez, a infecção pode ser transmitida verticalmente, com potencial efeito teratogênico, incluindo anomalias graves do sistema nervoso central. Embora a maioria dos fetos com exposição pré-natal ao vírus não apresente sintomas clínicos detectáveis, alguns podem ter manifestações leves, moderados ou graves que são coletivamente chamadas de síndrome congênita associada à infecção pelo vírus Zika (SCZ). A síndrome engloba um amplo espectro de anomalias estruturais (por exemplo, atrofia cortical com microcefalia), deficiências funcionais (disfagia) e sequelas clínicas (epilepsia) que pode se manifestar do nascimento a primeira infância.

Embora os pesquisadores saibam que a exposição pré-natal ao vírus pode afetar o desenvolvimento fetal e resultar na SCZ, há poucos dados sobre a sobrevivência e os resultados a longo prazo de crianças nascidas com SCZ em comparação com aquelas nascidas sem, e qual o impacto de importantes preditores de risco de mortalidade infantil, como peso ao nascer e idade gestacional ao nascimento, podem influenciar nesses desfechos.

Para preencher essa lacuna de conhecimento, pesquisadores do London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM), do Center of Data and Knowledge Integration for Health (CIDAS-Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) analisaram mais de 11 milhões de bebês nascidos no Brasil entre 2015 e 2018. Eles exploraram a associação entre taxas de mortalidade e SCZ, usando dados de saúde pública, registros de nascidos vivos e óbitos.

Metodologia

Foi realizado um estudo de coorte retrospectivo de base populacional, que incluiu dados de todos os nascidos vivos únicos no Brasil no período de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2018. Esses nascidos vivos foram acompanhados desde o nascimento até a idade de 36 meses (três anos) ou até o falecimento ou 31 de dezembro de 2018 (o que ocorresse primeiro).

As curvas de Kaplan-Meier e os modelos de sobrevida foram avaliados com ajuste para confundimento e com estratificação de acordo com a idade gestacional (IG), peso ao nascer (PN) e status de pequeno para idade gestacional (PIG).

Resultados

Foram analisados dados de mais de 11 milhões de bebês cadastrados no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), no período entre os anos 2015 e 2018, cruzados com dados do Registro de Eventos em Saúde Pública (Resp). Nesse processo, foram excluídos gêmeos e crianças que ainda não estavam confirmadas ou foram descartadas como portadoras de SCZ.

A amostra final de crianças com a SCZ foi de 3.308 e, neste universo, quase 20% nasceram prematuras, 36% foram categorizadas como de baixo peso ao nascer, 37% foram consideradas pequenas para a idade gestacional e 398 óbitos foram registrados. Em comparação com a amostra de 11.477.907 crianças sem a síndrome, nas quais 10,2% foram prematuras, 7,3% com baixo peso ao nascer, 7,1% consideradas pequenas para a idade gestacional e 120.629 óbitos foram registrados.

O estudo descobriu que a taxa de mortalidade entre nascidos vivos com SCZ foi mais de 11x maior do que entre bebês sem a síndrome até a idade de 36 meses.

Os resultados da pesquisa mostram que, tanto no período neonatal quanto após o primeiro ano de vida, crianças portadoras de Síndrome Congênita da Zika têm mais chances de morrer. Até os 28 dias de vida essas chances são sete vezes maiores do que para as crianças sem a síndrome. Esse número aumenta ainda mais entre 1 e 3 anos de vida: a possibilidade de uma criança com SCZ vir a óbito é 22 vezes maior.

Embora o estudo tenha identificado que não há diferença na taxa de mortalidade de crianças que nascem com menos de 32 semanas, sejam elas portadoras da síndrome ou não, isso muda a partir desse período. Os bebês com SCZ que nasceram entre 32 e 36 semanas de gestação são nove vezes mais propensos a morrer. As chances aumentam para 14 vezes quando o nascimento acontece após 37 semanas.

O padrão foi o mesmo em relação ao peso ao nascer. Embora não exista diferença para os nascidos com menos de 1,5kg, sejam ou não portadores da SCZ, o quadro muda se elas nascem com o peso considerado adequado: a possibilidade de óbito das crianças com a síndrome é 13 vezes maior.

Além de investigar as principais causas das mortes registradas entre as crianças com SCZ, os pesquisadores também compararam essas causas nas mortes de crianças sem a síndrome.

A análise mostrou que entre as crianças com a síndrome, a mortalidade por anomalias congênitas foi muito maior. Doenças infecciosas e parasitárias também estiveram entre as principais causas de morte neste grupo. Depois de 1 ano de vida, óbitos por causas relacionadas ao sistema nervoso central passaram a aumentar em comparação às crianças sem SCZ.

Os pesquisadores não encontraram diferença estatisticamente significativa entre o risco de mortalidade para bebês nascidos com ou sem microcefalia, sugerindo que não há risco adicional para o bebê. No entanto, isso pode ser porque o estudo não teve poder para observar essa diferença. Portanto, ainda precisa ser melhor investigado.

Além disso, o momento em que a mãe relatou ter uma erupção cutânea (um sintoma comum da infecção pelo vírus Zika), ou se ela teve ou não erupção cutânea, não pareceu alterar o risco de mortalidade do filho.

Conclusão

O estudo demonstrou o maior risco de óbito entre nascidos vivos com SCZ do que entre aqueles sem a síndrome, e o risco persistiu ao longo dos primeiros três anos da vida. Além disso, ressaltou a importância de que as mulheres sejam protegidas contra o vírus e que sistemas de assistência pós-natal sejam bem estabelecidos. Intervenções precoces após o nascimento de um bebê com SCZ podem reduzir os efeitos duradouros na saúde e melhorar as chances de sobrevivência. Agora, com o estudo, sabe-se quais bebês provavelmente correm maior risco, é necessário estabelecer cuidados e tratamentos pós-natais para dar a eles a melhor chance de vida.