| Introdução |
A obesidade é reconhecida como uma crise de saúde pública global. Esta patologia é um fator de risco determinante para uma série de comorbidades graves, incluindo diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, asma e alguns tipos de câncer, tornando seu tratamento essencial para reduzir a carga de doenças e elevar a qualidade de vida.
Dentre as opções terapêuticas atuais, a cirurgia bariátrica (especialmente o bypass gástrico em Y de Roux e a gastrectomia vertical) e a nova geração de agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1RAs), como a semaglutida e a tirzepatida, têm apresentado os resultados mais robustos na redução ponderal. Contudo, a literatura médica ressalta que a mensuração isolada do peso ou do Índice de Massa Corporal (IMC) pode ser insuficiente por negligenciar a composição corporal do paciente. Metanálises indicaram que, enquanto uma alta porcentagem de massa gorda (FM, em inglês para Fat Mass) está ligada ao aumento da mortalidade, a manutenção de níveis elevados de massa livre de gordura (FFM, em inglês para Fat-Free Mass) exerce um papel protetor contra o óbito e melhora o prognóstico diversas condições.
Embora existam dados abundantes sobre a redução do peso total e do IMC, as informações longitudinais sobre as mudanças na composição corporal em cenários de prática clínica real ainda são escassas, sendo a maioria dos estudos anteriores limitada por amostras reduzidas ou curtos períodos de acompanhamento. Por isso, Wang e colaboradores (2026) monitoraram as trajetórias da FM, FFM e da razão FFM/FM ao longo de 24 meses em pacientes submetidos a cirurgia bariátrica e GLP-1Ras.
| Métodos |
Foi realizado um estudo de coorte retrospectivo, que analisou dados de registros eletrônicos de saúde do Vanderbilt University Medical Center (VUMC). A amostra total consistiu em 3.066 pacientes, com idades entre 18 e 65 anos, divididos em dois braços: grupo cirúrgico (submetidos à cirurgia bariátrica) versus GLP-1RA.
A composição corporal foi quantificada através da Análise de Impedância Bioelétrica (BIA), uma técnica não invasiva que FM e a FFM através da resistência a uma corrente elétrica de baixa intensidade.
| Resultados |
No total, foram incluídos 1.257 pacientes no grupo da cirurgia bariátrica e 1.809 no de GLP-1Ras. A amostra foi predominantemente feminina em ambos os grupos (acima de 80%), com uma média de idade entre 43 e 45 anos. No início do acompanhamento, o grupo cirúrgico apresentava um IMC médio superior (46,8 vs. 41,0 kg/m²) e uma maior prevalência de diabetes, enquanto hipertensão e dislipidemia eram mais frequentes no grupo GLP-1RA.
Ambas as intervenções resultaram em reduções significativas da FM, porém a magnitude foi notavelmente superior no grupo cirúrgico. Após o ajuste por covariáveis, a redução relativa da FM no grupo de cirurgia bariátrica foi de 42,4% aos 6 meses, atingindo 49,7% aos 12 e 24 meses. Em contraste, o grupo GLP-1RA apresentou uma redução de 10,3% aos 6 meses, evoluindo para 17,3% aos 12 meses e 18,0% aos 24 meses.
Quanto à FFM, também observou-se uma redução em ambos os braços, embora menos expressiva do que a perda de gordura. No grupo cirúrgico, a perda de FFM foi de 7,8% aos 6 meses e 11,7% aos 24 meses. Já no GLP-1RA, essa redução da foi muito mais modesta, situando-se em 1,8% aos 6 meses e chegando a 3,3% ao final de 24 meses.
Houve um aumento significativo da razão FFM/FM em ambos os grupos, o que indicou uma melhora na qualidade da composição corporal, priorizando a perda de tecido adiposo. O grupo cirúrgico manteve uma razão superior durante todo o período, elevando-se de uma linha de base de 1,0 para 2,0 aos 24 meses. O grupo GLP-1RA partiu de uma razão basal de 1,2 e alcançou 1,5 aos 24 meses. Além disso, a porcentagem de perda de massa magra em relação à perda de peso total (FFML%TWL) foi estimada em cerca de 18,6% para a cirurgia e 24,8% para os GLP-1RAs aos 12 meses.
As análises estratificadas revelaram que essas tendências foram consistentes independentemente da raça, IMC inicial ou histórico de diabetes. No entanto, foram observadas diferenças significativas entre os sexos no que diz respeito à preservação da massa muscular. Os homens demonstraram uma melhor preservação da FFM do que as mulheres. Especificamente no tratamento com GLP-1RA, esses pacientes não apresentaram redução significativa de massa magra aos 6 meses e mantiveram essa estabilidade até os 24 meses. Em contrapartida, as mulheres experimentaram reduções significativas de FFM em ambas as modalidades de tratamento, apresentando uma taxa de perda de massa magra em relação ao peso total superior à dos homens, especialmente após o procedimento cirúrgico.
Em conclusão, tanto a cirurgia bariátrica quanto o tratamento com a nova geração de GLP-1RAs são intervenções altamente eficazes para a redução da FM e para a melhora da razão FFM/FM ao longo de 24 meses. Embora ambos os tratamentos resultem em alguma perda de FFM, a redução da massa gorda é proporcionalmente muito maior, o que sinaliza uma mudança favorável na composição corporal dos paciente.