| Introdução |
As doenças cardiovasculares (DCVs) são uma das principais causas de mortalidade e incapacidade no mundo. O número global de casos prevalentes dessas doenças quase dobrou, de 271 milhões para 523 milhões, entre 1990 e 2019. Portanto, explorar fatores de risco modificáveis e estratégias preventivas para as DCV tem um importante valor clínico e de saúde pública.
O número de assinaturas de telefones móveis aumentou drasticamente nas últimas décadas e ultrapassou 8,2 bilhões em 2020. Esses aparelhos emitem campos eletromagnéticos de radiofrequência (RF-EMF), que podem induzir a desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, reações inflamatórias e estresse oxidativo, o que pode afetar diversos órgãos, como o coração e os vasos sanguíneos. Dois estudos anteriores associaram o uso de telefones móveis com um aumento do risco de alguns desfechos cardiovasculares, como dissecção da artéria carótida interna e doença cardíaca isquêmica. No entanto, esses não foram bem desenhados para estimar a associação entre o uso desses aparelhos e o risco de DCV.
Além disso, o sono e a saúde mental têm sido implicados na patogênese das DCV. Embora o uso frequente de telefones móveis tenha sido associado a distúrbios do sono e piora da saúde mental, ainda não se sabe se esses fatores mediam a relação entre o uso de telefones móveis e a incidência dessas doenças cardíacas.
Para preencher essas lacunas no conhecimento, Zhang e colaboradores (2024) estimaram a relação entre o uso regular de telefones móveis e a incidência de DCV, utilizando dados do UK Biobank. Caso a associação fosse observada, avaliaram os efeitos das características de uso do aparelho, incluindo o tempo semanal de uso e o uso de viva-voz. Além disso, também foram analisados os padrões de sono, o neuroticismo e o estresse psicológico poderiam mediar a relação entre o uso de telefones móveis e a incidência de DCV.
| Métodos |
No total, foram incluídos 444.027 indivíduos do UK Biobank, sem histórico de doenças cardiovasculares (DCV) no estudo. O uso regular dos telefones móveis foi definido como pelo menos 1 chamada por semana. O tempo de uso foi autorrelatado com o tempo médio de chamados por semana nos últimos três meses.
O desfecho primário foi a incidência de DCV, um composto de acidente vascular cerebral (AVC), doença coronariana (CHD), fibrilação atrial (FA) e insuficiência cardíaca (IC). Os secundários incluíram cada componente individualmente da DCV e o aumento da espessura íntima-média da carótida (CIMT). O modelo de risco proporcional de Cox foi aplicado para avaliar a associação entre o uso de telefones móveis e a incidência de DCV.
Uma pontuação saudável de sono foi estimada considerando o cronotipo, duração do sono, insônia, ronco e sonolência excessiva diurna. A versão de 4 itens do Patient Health Questionnaire (PHQ-4) foi usada para definir o estresse psicológico. Esse tem uma pontuação que varia de 0 a 12, com pontuações mais altas indicando maior estresse. O neuroticismo foi avaliado usando o Questionário de Personalidade de Eyesenck, com pontuações maiores indicando seu diagnóstico.
| Resultados |
No total, foram incluídos 444.027 indivíduos, dos quais 378.161 eram usuários regulares de telefones móveis. A população tinha uma idade média de 56,1 anos e incluiu 195.623 homens. Os usuários regulares eram mais jovens, tinham maiores proporções de serem fumantes e residentes urbanos, e menores proporções de histórico de hipertensão e diabetes. Também apresentavam maior renda, IMC e menores níveis de escolaridade. Além disso, em comparação com usuários regulares de telefones móveis, aqueles com maior tempo semanal de uso eram mais jovens, tinham maior proporção de homens, fumantes atuais e utilizarem o viva-voz durante as chamadas, menor proporção de histórico de hipertensão, maior TDI, renda, IMC, eTFG, e níveis mais baixos de HDL-C.
Durante uma mediana de 12,3 anos de acompanhamento, um total de 56.181 indivíduos (12,7%) desenvolveu DCV. Os usuários regulares de aparelhos móveis apresentaram um risco significativamente maior de incidência de DCV. Entre esses, a duração do uso e o uso de viva-voz durante as chamadas não foram significativamente associados à incidência. No entanto, houve uma relação dose-resposta significativa e positiva entre o tempo semanal de uso do telefone móvel e o risco de doença cardiovascular.
Ademais, entre os usuários regulares de telefones móveis, um maior tempo semanal de uso do telefone foi significativamente associado a um risco mais elevado de aumento da CIMT.
Comparados aos não usuários regulares de telefones móveis, os regulares estavam associados a padrões de sono mais pobres, além de níveis mais elevados de neuroticismo e angústia psicológica. Os que utilizavam o telefone por 1 hora ou mais por semana apresentaram padrões de sono mais prejudicados, níveis mais elevados de neuroticismo e angústia psicológica, em comparação com os que usavam por menos de 1 hora. Al
As análises de mediação mostraram que um padrão de sono prejudicado, angústia psicológica e neuroticismo mediaram significativamente a associação positiva entre o tempo semanal de uso do telefone móvel e o risco de incidência de DCV, com uma proporção de mediação de 5,11%, 11,50% e 2,25%, respectivamente.
| Conclusão |
O uso regular de telefones móveis foi significativamente relacionado ao aumento do risco de incidência de DCV e ao aumento da CIMT, especialmente entre aqueles com maior tempo semanal de uso de telefones móveis. A relação entre o tempo de uso semanal do telefone e a incidência de doença cardiovascular foi parcialmente mediada por padrões de sono, angústia psicológica e neuroticismo. Se confirmados em estudos futuros, esses achados incentivam medidas para reduzir o tempo gasto em telefones móveis. Além disso, melhorar a qualidade do sono e a saúde mental pode ajudar a reduzir o maior risco de DCV associado ao uso de telefones móveis.