| Introdução |
A população transgênero e com diversidade de gênero (TGD) enfrenta desproporcionalmente mais desafios de saúde mental. Foram relatadas taxas de prevalência de de 41% de tentativas de suicídio ao longo da vida, de 7% a 61% no consumo excessivo de álcool e de 33% no uso de tabaco nas pessoas que não se identificam com o gênero de seu nascimento.
Conforme os Padrões de Cuidados divulgados pela Associação Profissional Mundial para a Saúde Transgênero, a cirurgia de afirmação de gênero é considerada um tratamento clinicamente necessário para aliviar o sofrimento psicológico de muitas pessoas TGD. O termo "cirurgia de afirmação de gênero" engloba qualquer procedimento cirúrgico oferecido para validar as identidades dessa população.
Dada a crescente incidência da cirurgia de afirmação de gênero entre pessoas TGD, há uma necessidade significativa de esclarecimento sobre os seus benefícios para a saúde mental. Por isso, Almazan e colaboradores (2021) conduziram um extenso estudo utilizando a Pesquisa Transgênero dos EUA de 2015 para verificar os efeitos da cirurgia na saúde mental nessa população.
| Métodos |
Conduziu-se uma análise secundária dos dados provenientes da Pesquisa de Transgênero dos EUA de 2015, a qual abrangeu os 50 estados, entre eles, Washington, DC, territórios americanos e bases militares dos EUA no exterior. Participaram da pesquisa um total de 27.715 adultos TGD. A análise dos dados foi realizada no período compreendido entre 1 de novembro de 2020 e 3 de janeiro de 2021.
O grupo de exposição consistiu em entrevistados que expressaram apoio à realização de um ou mais tipos de cirurgia de afirmação de gênero pelo menos 2 anos antes de fornecerem suas respostas na pesquisa. Por outro lado, o de comparação englobou os que manifestaram o desejo de realizar um ou mais tipos de cirurgias de afirmação de gênero, mas negaram terem sido submetidos a qualquer uma delas.
| Resultados |
Dos 27.715 participantes entrevistados, 3.559 (12,8%) foram do grupo de exposição e 16.401 (59,2%) do de comparação. Na amostra do estudo, 16.182 (81,1%) dos entrevistados tinham entre 18 e 44 anos, 16.386 (82,1%) se identificaram como brancos, 7.751 (38,8%) se identificaram como mulheres transexuais, 6.489 (32,5%) como homens transexuais e 5.300 (26,6%) como não binários.
Após ajustes para fatores sociodemográficos e exposição a outros tipos de cuidados relacionados à afirmação de gênero, submeter-se a uma ou mais formas de cirurgia de afirmação de gênero mostrou associação com menor sofrimento psicológico no último mês (odds ratio ajustado [aOR], 0,58; IC 95%, 0,50 - 0,67; P < 0,001), menor incidência de tabagismo no último ano (aOR, 0,65; IC 95%, 0,57-0,75; P < 0,001) e menor propensão à ideação suicida no último ano (aOR, 0,56; IC 95%, 0,50-0,64; P < 0,001).
Adicionalmente, na análise post hoc, ao estratificar por grau de afirmação cirúrgica, os 16.401 entrevistados que constituíam o grupo de referência, sem terem realizado as cirurgias desejadas, foram comparados. Aqueles que passaram por todas as cirurgias desejadas (n = 2.448) apresentaram reduções significativas nas chances de experimentar cada resultado adverso em saúde mental, e essas foram mais acentuadas em comparação com os entrevistados que realizaram apenas algumas das cirurgias desejadas (n = 3.311).
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Conclusão No estudo, os resultados apresentados pelos autores indicaram que a cirurgia de afirmação de gênero foi correlacionada com a redução do sofrimento psicológico grave no último mês, do tabagismo e da ideação suicida no último ano. Essas descobertas ofereceram respaldo empírico para a provisão de cuidados cirúrgicos de afirmação de gênero a pessoas TGD que buscam esses procedimentos. Além disso, o estudo forneceu evidências que respaldaram a implementação de políticas que ampliem e assegurem o acesso aos cuidados cirúrgicos de afirmação de gênero para as comunidades TGD. |