Arte & Cultura

Publicado el 16 de octubre de 2026

doença cardiovascular na gravidez

Além do parto: como complicações cardiovasculares na gestação influenciam a saúde da mãe e do filho

A doença cardiovascular materna está se tornando mais frequente e complexa, mas ainda carece de evidências robustas para orientar prevenção, diagnóstico e tratamento.

Autor/a: Tayal U, Sheppard C, Lawlor DA, de Marvao A.

Fuente: JAMA Cardiol. 2026;11(10):907–908. doi:10.1001/jamacardio.2026.2829 Maternal Cardiovascular Disease—Time to Close the Evidence Gap

A doença cardiovascular (DCV) é a principal causa de morbidade e mortalidade entre mulheres em todo o mundo, inclusive durante a gravidez e o período pós-parto. Nas últimas duas décadas, a DCV materna tornou-se mais frequente e complexa, refletindo o aumento da idade de gestação, a maior prevalência de doenças cardiometabólicas adquiridas e a melhora da sobrevida de mulheres com cardiopatias congênitas e hereditárias até a idade reprodutiva.

Apesar desse aumento da carga da doença, a base de evidências que orienta a prevenção, o diagnóstico e o manejo permanece limitada. Grande parte da prática atual ainda se apoia em pequenos estudos observacionais, consensos de especialistas ou extrapolações de dados obtidos em populações não gestantes. Reduzir essa lacuna é essencial não apenas para melhorar os desfechos durante a gestação e o pós-parto, mas também para orientar estratégias de prevenção cardiovascular de longo prazo.

Preencher essas lacunas exige uma mudança na forma como a pesquisa em saúde cardiovascular materna é conduzida, adotando modelos escaláveis, longitudinais, centrados nas pacientes e integrados aos cuidados de rotina, além de preparados para ensaios clínicos. Como exemplo, Tyal et al., (2026) citaram o ensaio Pregnancy Heart Health and Cardiovascular Disease (PREG-HEART), uma coorte britânica desenvolvida em parceria com mulheres que vivenciaram doenças cardiovasculares na gravidez. O estudo permitiu vincular dados fornecidos diretamente pelas participantes aos registros do Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), possibilitando o acompanhamento de longo prazo tanto das mães quanto de seus filhos.

Doença cardiovascular materna ao longo da vida

A gravidez impõe importantes demandas hemodinâmicas, metabólicas e vasculares que podem revelar doenças cardiovasculares previamente não diagnosticadas ou agravar condições já existentes. Distúrbios hipertensivos da gestação, cardiomiopatia periparto, arritmias, eventos isquêmicos e insuficiência cardíaca aguda são cada vez mais comuns na prática obstétrica contemporânea, estando associados a hospitalizações prolongadas, uso de terapia intensiva e mortalidade materna.

As consequências, porém, vão muito além do parto. Desfechos gestacionais adversos, como pré-eclâmpsia, hipertensão gestacional, diabetes gestacional, parto prematuro e restrição do crescimento fetal, estão associados a maior risco futuro de hipertensão crônica, doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral, comprometimento renal, insuficiência cardíaca e outras doenças cardiovasculares. Essas complicações provavelmente refletem uma suscetibilidade vascular e metabólica subjacente e, em alguns casos, também podem contribuir diretamente para alterações fisiopatológicas duradouras.

Dessa forma, a gravidez deve ser reconhecida como uma importante janela para avaliar a saúde cardiovascular futura da mulher e como uma oportunidade para implementar monitoramento estruturado no pós-parto e estratégias preventivas ao longo da vida.

Impacto sobre a saúde dos filhos

A saúde cardiovascular materna também exerce importante influência sobre os filhos. A exposição à hipertensão materna, cardiomiopatias ou doenças cardiometabólicas está associada a maiores riscos de prematuridade, restrição do crescimento fetal e complicações neonatais. Estudos de acompanhamento também sugeriram perfis cardiometabólicos menos favoráveis nos descendentes ao longo da vida.

Esses efeitos intergeracionais provavelmente resultam da combinação de fatores genéticos compartilhados, exposições intrauterinas, mecanismos epigenéticos e influências ambientais precoces. Entretanto, ainda são raros os estudos que relacionam sistematicamente os diferentes perfis cardiovasculares maternos aos desfechos de longo prazo dos filhos.

A lacuna de evidências em DCV materna

Importantes iniciativas internacionais ampliaram o conhecimento nessa área. O Registry of Pregnancy and Cardiac Disease (ROPAC) da Sociedade Europeia de Cardiologia e a coorte prospectiva CARPREG forneceram dados valiosos sobre complicações cardíacas e estratificação de risco em gestantes com cardiopatias.

No entanto, esses estudos recrutaram participantes principalmente em centros especializados. Em comparação, dados do Reino Unido sugeriram que quase 30 mil mulheres iniciaram a gestação com uma doença cardíaca previamente diagnosticada somente na Inglaterra entre 2019 e 2024. Isso evidencia uma discrepância importante entre o número de casos existentes e aqueles efetivamente representados em estudos clínicos.

Diversos desafios estruturais continuam limitando a construção de uma base robusta de evidências:

·       Coortes pequenas e pouco representativas.

·       Predominância de estudos realizados em poucos centros acadêmicos especializados.

·       Baixa representatividade de diferentes grupos étnicos, socioeconômicos e geográficos.

·       Dificuldades de recrutamento e retenção de participantes.

·       Participação limitada de pacientes no planejamento dos estudos.

·       Protocolos que exigem múltiplas visitas presenciais, aumentando a sobrecarga durante a gestação e o pós-parto.

·       Infraestrutura de dados insuficiente para capturar informações complexas e longitudinais.

·       Avaliação inadequada de desfechos centrados na paciente, como sintomas, qualidade de vida, saúde mental, carga terapêutica e impacto no planejamento familiar.

Outro problema importante é a histórica exclusão de gestantes e puérperas dos ensaios clínicos, em razão de preocupações regulatórias, de segurança e operacionais. Como consequência, permanecem lacunas significativas em relação à segurança dos tratamentos, estratégias diagnósticas e cuidados pós-parto.

A fragmentação da assistência após o parto agrava ainda mais essas limitações, reduzindo a continuidade do cuidado e dificultando o acompanhamento em pesquisas. Isso faz com que muitos profissionais dependam de recomendações baseadas em consenso, em vez de evidências robustas derivadas de estudos randomizados específicos para gestantes.

Um novo modelo para a pesquisa cardiovascular materna

Superar essas limitações exigirá mais do que novos estudos observacionais ou pequenas melhorias metodológicas. Será necessário transformar a forma como a pesquisa é organizada, substituindo iniciativas isoladas por modelos colaborativos, longitudinais, centrados nas pacientes e preparados para ensaios clínicos.

A experiência vivida pelas próprias mulheres deve ocupar papel central, influenciando:

·       A definição das prioridades de pesquisa.

·       As estratégias de recrutamento.

·       Os processos de consentimento.

·       A coleta de dados.

·       A divulgação dos resultados.

Também será fundamental realizar uma caracterização longitudinal e multimodal das participantes, integrando prontuários eletrônicos, exames de imagem, dados fisiológicos, amostras biológicas e informações relatadas pelas próprias pacientes ao longo da gestação e do pós-parto.

Além disso, ambientes de pesquisa preparados para ensaios clínicos permitirão testar estratégias diagnósticas, medicamentos, intervenções preventivas e modelos de cuidado pós-parto em cenários reais e mais inclusivos.

Conclusão

A doença cardiovascular materna constitui um desafio crescente para a saúde pública, com repercussões que se estendem por toda a vida da mulher e podem afetar a geração seguinte. Apesar de sua importância, as evidências que orientam prevenção, diagnóstico e tratamento ainda são insuficientes. Reduzir essa lacuna exigirá uma abordagem de pesquisa mais coordenada, inclusiva, longitudinal e centrada nas pacientes, capaz de gerar evidências robustas para melhorar o cuidado e os desfechos maternos e infantis.