A acne é uma doença crônica da unidade pilossebácea, tradicionalmente associada à adolescência. No entanto, há um reconhecimento crescente da acne feminina adulta (AFA), entre mulheres com mais de 25 anos, podendo persistir desde a juventude ou surgir pela primeira vez na vida adulta.
Embora antes se acreditasse que a AFA se concentrava na região mandibular, pesquisas mostraram que a maioria das mulheres apresenta lesões em múltiplas áreas faciais, com padrão clínico semelhante ao da acne juvenil, incluindo comedões, lesões inflamatórias e até acometimento do tronco.
Ferramentas como a escala Global Evaluation Acne (GEA) e a ferramenta de pontuação Adult Female Acne Scoring Tool (AFAST) foram desenvolvidas para avaliar a gravidade dessa condição, considerando suas particularidades clínicas. Embora compartilhe mecanismos com a acne comum, os fatores que desencadeiam a AFA ainda não são totalmente compreendidos. Evidências apontaram para o papel do hiperandrogenismo, estresse psicológico, tabagismo, histórico familiar, e hábitos alimentares, como o consumo de alimentos com alto índice glicêmico e laticínios.
Apesar da relevância clínica, não existem estudos que estimem sua prevalência no Brasil ou identifiquem seus fatores de risco. Diante disso, o estudo de Lange e colaboradores (2025) teve como objetivo estimar a prevalência da AFA em uma amostra representativa da população feminina brasileira, além de investigar possíveis associações entre fatores demográficos, clínicos e ambientais relacionados à condição.
Foram incluídas 258 mulheres entre 25 e 55 anos, estratificadas por faixa etária e raça conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A coleta ocorreu em um centro público de saúde no interior de São Paulo, por amostragem por conveniência. As participantes responderam a questionários sobre queixas de acne, dados demográficos, fatores hormonais e de estilo de vida, além de escalas validadas para ansiedade, depressão, estresse e impacto da acne. A gravidade da AFA foi avaliada clinicamente com a ferramenta AFAST.
No total, 41,1% relataram queixas de acne, sendo mais prevalente entre aquelas de 25 a 29 anos (60%) e menos frequente entre 50 e 55 anos (15%). Na avaliação clínica, 36,6% apresentavam lesões de acne, e entre as que relataram o problema, 70% conviviam com ele desde a adolescência, embora apenas 26,6% estivessem em tratamento.
A maioria das participantes não considerava a acne um problema relevante (69%), enquanto 28% a viam como um incômodo leve e 3% como um problema importante. As queixas foram mais comuns entre mulheres mais jovens e de raça preta ou parda. Fatores como menarca precoce, menor número de gestações, ausência de menopausa e hirsutismo mostraram associação significativa com a acne. Já IMC, circunferência abdominal, irregularidade menstrual e histórico familiar não apresentaram correlação relevante.
Entre os hábitos alimentares, consumo de chocolate e fast food teve associação estatística com acne, enquanto leite, açúcar, adoçantes e suplementos não. Pele oleosa e uso frequente de maquiagem também foram associados às queixas. Fatores como frequência de lavagem do rosto, exposição solar e uso de máscara facial durante a pandemia não mostraram correlação.
A percepção das participantes sobre a acne teve boa concordância com a avaliação clínica, incluindo lesões na região submandibular (avaliadas pela escala AFAST). O impacto psicossocial foi evidente: estresse e ansiedade se correlacionaram com a percepção da acne, enquanto a depressão não. Na avaliação clínica, lesões retencionais foram as mais comuns, seguidas por padrões mistos e inflamatórios. Além disso, a gravidade da acne facial e submandibular foi associada à piora na qualidade de vida, conforme o índice Cardiff Acne Disability Index (CADI).
Em resumo, o estudo de Lange e colaboradores (2025) evidenciou que a acne na mulher adulta é uma condição prevalente na população brasileira, especialmente antes dos 40 anos, com predominância de casos leves a moderados e persistência desde a adolescência. Fatores como etnia, hirsutismo, menarca precoce, pele oleosa e uso de maquiagem mostraram associação positiva com as queixas de acne, enquanto o tabagismo e a idade mais avançada apresentaram associação inversa. Esses dados reforçaram a importância de considerar aspectos hormonais, metabólicos e comportamentais na abordagem clínica da AFA, além de destacarem a necessidade de estudos multicêntricos para aprofundar o entendimento sobre seus determinantes e evolução.