| Introdução |
A hemorragia gastrointestinal alta aguda (HDA) está associada a elevadas taxas de mortalidade, especialmente em pacientes com cirrose classe B e C de Child-Turcotte-Pugh, sendo causada por fatores relacionados ou não à hipertensão portal. Pacientes com cirrose descompensada frequentemente apresentam hiper fibrinólise sistêmica, condição que pode ser agravada pela HDA. Além disso, a fibrinólise local, caracterizada pelo aumento da atividade fibrinolítica na mucosa do esôfago e do estômago, também é comum nesses pacientes.
O ácido tranexâmico, um agente anti fibrinolítico, surge como uma potencial solução para o controle da HDA em pacientes com cirrose. No entanto, pacientes com cirrose, especialmente aqueles com Child-Pugh-B e C descompensadas, constituem um grupo altamente vulnerável. Portanto, é necessário cautela ao aplicar uma abordagem uniforme no manejo desses casos, sendo fundamental a realização de ensaios clínicos randomizados que considerem os processos fisiopatológicos específicos. Nesse contexto, Kumar e colaboradores (2024) investigaram a eficácia e a segurança do uso de ácido tranexâmico no tratamento da HDA em pacientes com cirrose.
| Métodos |
Este ensaio clínico randomizado envolveu 794 pacientes com suspeita de cirrose avançada e sangramento gastrointestinal superior. Após serem avaliados para elegibilidade e atenderem aos critérios de inclusão e exclusão, 600 pacientes foram selecionados e randomizados em dois grupos: grupo de ácido tranexâmico (n=300) e grupo placebo (n=300).
Os pacientes no grupo de ácido tranexâmico receberam uma dose inicial de 1 g de ácido tranexâmico, diluída em 100 mL de solução salina normal, administrada lentamente ao longo de 10 minutos, seguida por uma dose de manutenção de 3 g, diluída em 1000 mL de solução salina, infundida ao longo de 24 horas. No momento da randomização, foram coletados dados demográficos, além de histórico médico e exame físico completos. Os pacientes foram monitorados para controle de sangramento e ressangramento até a alta hospitalar e por um período adicional de 6 semanas.
| Resultados |
O desfecho primário medido foi a proporção de pacientes que apresentaram falha no tratamento em até 5 dias. A falha no controle do sangramento até o quinto dia foi observada em 19 de 300 pacientes (6,3%) no grupo tratado com ácido tranexâmico, em comparação a 40 de 300 pacientes (13,3%) no grupo placebo (p = 0,006). Entre os pacientes submetidos à ligadura endoscópica de varizes esofágicas (EVL) pela primeira vez (excluindo aqueles com úlcera pós-EVL prévia como causa do sangramento), a falha no controle do sangramento no quinto dia foi observada em 11 de 222 pacientes (4,9%) no grupo do ácido tranexâmico e em 27 de 225 pacientes (12,0%) no grupo placebo (p = 0,005). No entanto, a mortalidade em 5 dias e em 6 semanas foi semelhante entre os grupos do ácido tranexâmico e do placebo.
| Conclusão |
Em conclusão, este ensaio demonstrou que o ácido tranexâmico reduziu significativamente a falha no controle do sangramento no 5º dia, além de diminuir a recorrência de sangramento entre 5 e 6 semanas, em pacientes com cirrose hepática avançada (classe B ou C de Child -Pugh), principalmente ao prevenir sangramentos no local da ligadura endoscópica de varizes esofágicas.