Embora muitos filmes sejam fictícios e tenham caráter dramático em sua natureza e intenção, pesquisas indicaram que eles podem influenciar significativamente as opiniões e crenças dos espectadores sobre temas amplos, como HIV, transtornos mentais, tabagismo, imigração, governança e culturas estrangeiras. Dessa forma, o cinema desempenha um papel essencial na formação da opinião pública sobre diversas questões, incluindo o câncer.
A representação dos tumores nos filmes pode deixar uma marca profunda e duradoura nos espectadores. Nesse contexto, é crucial que oncologistas compreendam como o câncer é retratado na cinematografia, a fim de identificar e lidar com possíveis discrepâncias entre as percepções dos pacientes e a realidade do tratamento. Com essa perspectiva, Benjamin e colaboradores (2024) conduziram uma análise de mais de 100 filmes que abordavam o tumor, buscando entender de que forma a doença é representada no cinema.
Para investigar como o câncer é representado no cinema, mais de 100 filmes em inglês lançados na última década foram analisados. O estudo buscou identificar possíveis percepções errôneas que indivíduos com o tumor podem desenvolver a partir dessas representações. Foram observadas discrepâncias significativas entre a caracterização da doença em filmes e as realidades clínicas, incluindo tipos de câncer, possibilidade de cura, opções de tratamento, uso de cuidados paliativos e representações dos custos financeiros envolvidos.
Embora o objetivo dos filmes seja predominantemente o entretenimento, essas representações podem moldar a percepção pública, frequentemente apresentando o câncer como uma condição homogênea e simplificada. A maioria dos filmes retratam o tumor de forma genérica, sem especificar o tipo; quando especificado, os cerebrais, mamários e pulmonares foram os mais comuns, contrastando com as incidências mais frequentes nos EUA. Essa abordagem contribui para uma visão distorcida da complexidade da oncologia e das variações nos tratamentos.
Os filmes tendem a enfatizar casos incuráveis, o que não corresponde à realidade, já que muitos deles, como o de mama e próstata, são frequentemente diagnosticados e tratados em estágios iniciais, com altas taxas de cura. A abordagem predominantemente fatalista também omite discussões sobre a detecção precoce, diminuindo a conscientização sobre a importância do rastreamento. Além disso, o tratamento oncológico é apresentado de forma limitada, com ênfase na quimioterapia, enquanto imunoterapia e terapias-alvo, amplamente usadas desde 2011, raramente aparecem, refletindo um distanciamento das práticas oncológicas atuais.
Esse vácuo de informação cinematográfica impacta negativamente a aceitação desses serviços, importantes para a qualidade de vida dos pacientes em estágios avançados ou sintomáticos. Além disso, a toxicidade financeira, um aspecto crucial do tratamento do câncer, é retratada em apenas quatro filmes. Essa falta de representação reflete a ausência de conscientização sobre os custos significativos envolvidos e seu impacto no bem-estar psicológico dos pacientes, uma questão frequentemente subestimada pelos próprios pacientes.
Portanto, através desta análise, Benjamin e colaboradores (2024) constataram que indivíduos com câncer, familiares e profissionais de saúde devem estar cientes de que as representações cinematográficas tendem a ser irreais. Por fim, os médicos e oncologistas, ao reconhecerem essas influências, devem fornecer educação mais eficaz, ajudando os pacientes a alinharem suas percepções com a realidade do tratamento oncológico.