O seio, símbolo de maternidade e feminilidade, sempre desempenhou um papel marcante nas representações artísticas ao longo da história. Essas representações frequentemente suscitam debates entre acadêmicos sobre possíveis anormalidades intencionalmente retratadas pelos artistas e sobre as mensagens que desejavam transmitir. Nesse contexto, Nerlich e colaboradores (2024) investigaram uma anomalia mamária representada em uma obra de Michelangelo.
Em 1508, sob a ordem do Papa Júlio II, Michelangelo Buonarroti iniciou a pintura da abóbada da Capela Sistina, com a narrativa do Gênesis, do Antigo Testamento, como tema central. A primeira cena pictórica, "O Dilúvio", apresenta um grupo de indivíduos tentando escapar das águas que avançam. No lado esquerdo do afresco, destaca-se uma jovem adulta quase nua, vestindo apenas um lenço azul na cabeça e uma capa da mesma cor.
Seguindo critérios rigorosos para o diagnóstico de condições médicas em obras de arte, foi observado que a mama esquerda da figura exibe ptose, possivelmente associada à idade ou à amamentação, com um mamilo proeminente e contornos suaves. Em contraste, a mama direita apresenta um mamilo retraído e deformado, acompanhado por uma protuberância discreta no quadrante medial superior, consistente com um possível nódulo. Adicionalmente, outra leve protuberância é visível na direção da axila esquerda, sugerindo a presença de linfonodos aumentados.

Figura 1. Detalhes da cena da abóbada mostrando uma mulher quase nua em “O Dilúvio”. Imagem adaptada de Nerlich et al. (2024).
Após a exclusão de outras possíveis condições mamárias que poderiam justificar essa representação, as características presentes na pintura indicam a possibilidade de um caso de carcinoma mamário. A escolha de retratar essa patologia de forma intencional parece estar alinhada ao simbolismo teológico frequentemente presente nas obras de Michelangelo, que misturava idealizações bíblicas com retratos de corpos humanos realistas e imperfeitos.
Na composição, deformidades, patologias ou expressões faciais distorcidas poderiam ser usadas para simbolizar o mal ou a condição humana degenerada, estabelecendo um contraste claro entre o justo e o corrupto. Nesse sentido, a comparação entre as mamas esquerda e direita da figura reforça a hipótese de uma condição patológica. A experiência de Michelangelo em autópsias desde os 17 anos também pode ter influenciado sua capacidade de observar e reproduzir doenças, incluindo o câncer de mama.
Por fim, a representação de Michelangelo em "O Dilúvio" parece evidenciar características compatíveis com o câncer de mama, corroboradas pelo simbolismo e pela narrativa teológica subjacentes à obra. Essa composição não apenas reflete a compreensão artística e anatômica de Michelangelo, mas também insere a condição patológica em um contexto de reflexão sobre vida, morte e moralidade.