Art & Culture

/ Published on September 20, 2024

Centralizando o Cérebro Periférico

A história das ferramentas de referência na medicina

Evolução das ferramentas de referência médica e como elas influenciam a identidade, o pensamento e a prática dos médicos

Há séculos, os médicos dependem de ferramentas de referência como repositório de conhecimento. O "cérebro periférico" proverbial do médico assumiu várias formas ao longo do tempo, desde livros didáticos e arquivos de referência até guias de bolso e smartphones. Traçar a evolução dessas ferramentas na medicina ilustra sua influência duradoura e em constante transformação sobre a identidade, o pensamento e a prática médica.

Evolução das ferramentas de referência médica

Muito antes da chamada “Era da Informação”, estudiosos já enfrentavam problemas semelhantes à sobrecarga de informações. Durante a Renascença, o desenvolvimento de novas tecnologias de impressão e a descoberta de novos mundos ocorreram paralelamente a uma crescente "fome de informação" (“infolust”). Nos séculos seguintes, os médicos criaram livros de referência de diversos tipos, refletindo, em parte, a aparente explosão de informações.

Na América do Norte, o livro “The Principles and Practice of Medicine” (1892), de William Osler, foi a principal referência médica até que sua popularidade foi rivalizada por “Textbook of Medicine” (1927), de Russell LaFayette Cecil. Considerando esses livros excessivamente descritivos e focados na anatomia mórbida, o cardiologista Tinsley Harrison e seus colegas criaram, na década de 1940, um novo texto centrado na bioquímica e fisiologia das doenças. O resultado foi o “Principles of Internal Medicine” (1950), mais conhecido como “Harrison’s”, que moldou significativamente a forma como os médicos aprendiam e se formavam profissionalmente. Com o aumento da popularidade de certos livros, eles se tornavam símbolos culturais na construção da identidade profissional dos médicos.

A partir do século 19, as revistas médicas começaram a proliferar. Enquanto os livros didáticos buscavam sintetizar essa literatura crescente, o “Index Medicus” (1879), criado por John Shaw Billings na Biblioteca do Escritório do Cirurgião-Geral, ajudava os médicos a acessarem diretamente os artigos de revistas. Em grandes centros médicos, bibliotecas centralizadas surgiram para organizar essa literatura e entregá-la a médicos de destaque. O rápido crescimento do conhecimento médico gerou ansiedades sobre a obsolescência das ferramentas de referência.

Com o tempo, os médicos passaram a evitar o uso de livros didáticos volumosos durante as visitas domiciliares e o atendimento hospitalar. Por séculos, carregaram guias de bolso, também chamados de "manuais", "livros de bolso" ou “vade mecum” (do latim "vá comigo"), que funcionavam como estímulos de memória portáteis. Esses guias tornaram-se mais populares a partir de meados do século 20, sendo o "Washington Manual" (1943) um exemplo amplamente utilizado, quase tão comum quanto o estetoscópio.

Era digital das ferramentas de referência

A introdução da computação digital prometeu uma nova geração de sistemas de referência atualizáveis instantaneamente. Em 1963, a Biblioteca Nacional de Medicina lançou uma versão computadorizada do “Index Medicus”, chamada Sistema de Análise e Recuperação de Literatura Médica (MEDLARS). Com o tempo, os médicos passaram a acessar remotamente o banco de dados usando o Medline (1971) e, mais tarde, a Internet por meio do PubMed (1996). Paralelamente, surgiram "livros didáticos eletrônicos", que incorporavam diferentes níveis de suporte à decisão, adotados em graus variados por diferentes instituições.

Futuro das ferramentas de referência

O panorama das ferramentas de referência médica continuará a evoluir com sua integração a ensaios clínicos, algoritmos de aprendizado de máquina e prontuários eletrônicos. As escolhas em relação a essas ferramentas estão intimamente ligadas a normas clínicas e até mesmo ao vestuário dos profissionais (por exemplo, qual guia de bolso poderia caber no uniforme clínico atual?). As demandas e restrições relacionadas a algoritmos de busca e "engenharia de prompts" podem gerar novas maneiras de abordar e interagir com os dados médicos. A história das ferramentas de referência demonstra que o "cérebro periférico" do médico é, na verdade, uma parte essencial de sua prática.