Art & Culture

/ Published on May 17, 2024

Orangotangos e a automedicação com plantas

A evolução dos animais na fitoterapia

Pela 1ª vez na história, pesquisadores observaram o uso de uma pasta feita de planta medicinal aplicada em um ferimento por um primata

Index
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2. Referências

No início da década de 1960, a pesquisadora Jane Goodall foi a primeira a observar a presença de folhas inteiras nas fezes de chimpanzés (Pan troglodytes) no riacho Gombe, na Tanzânia. Esse comportamento foi posteriormente documentado em vários locais, juntamente com a mastigação de caroço amargo, demonstrando funções terapêuticas e antiparasitárias. Desde então, várias formas de automedicação foram observadas em grandes símios selvagens, sendo que algumas das evidências mais detalhadas vêm de pesquisas em primatas.

Recentemente, Laumer e sua equipe (2024) observaram um orangotango no Parque Nacional Gunung Leuser, na Indonésia, mastigando as folhas de uma planta chamada Akar Kuning (Fibraurea tinctoria) e aplicando-as em um ferimento em sua bochecha. A mesma não foi aplicada em nenhum outro lugar do rosto, sugerindo que a intenção era promover um tratamento. Este foi o primeiro registro científico de um animal aplicando deliberadamente medicamento no local de sua própria ferida.

Além disso, após a aplicação, o orangotango começou a descansar mais do que o normal. A ferida fechou quatro dias após o tratamento e pareceu totalmente curada depois de três semanas. Esse comportamento demonstrou a capacidade dos grandes símios selvagens de usar plantas medicinais de forma consciente para tratar ferimentos e promover a própria saúde.

Imagem. Evolução da ferida: Orangotango chamado Rakus cura a própria ferida com planta medicinal. Imagem adaptada de Laumer et al. (2024)

A planta

A Fibraurea tinctoria é uma planta que cresce em regiões tropicais e subtropicais da África, Ásia e Austrália, sendo conhecida por suas propriedades medicinais. Ela tem sido estudada como uma possível aliada no tratamento da malária. Além disso, evidências sugeriram que os extratos desta planta possuem propriedades anti-inflamatórias e contêm compostos antioxidantes que podem ajudar a combater os danos causados pelos radicais livres.

Estudos também estão sendo realizados para investigar o potencial da Fibraurea tinctoria no tratamento de várias condições, como febre, dor, infecções e problemas de pele. No entanto, é importante ressaltar que essas são apenas sugestões e indícios, e que mais pesquisas são necessárias para compreender completamente os efeitos e as potenciais aplicações medicinais desta planta.

Animais se medicam

De acordo com a pesquisa, os orangotangos parecem recorrer frequentemente a plantas medicinais, pois costumam consumi-las para infecções parasitárias, por exemplo. Há relatos de orangotangos mastigando diligentemente folhas da planta Dracaena cantleyi por vários minutos antes de esfregar a espuma em seus braços e pernas por mais de meia hora, mas ainda não se sabe a intenção. A teoria é que seja usada para tratar dores musculares e ósseas.

Quanto ao uso da Fibraurea tinctoria, os próprios autores sugeriram uma possibilidade: Rakus pode ter usado a substância apenas para aliviar a dor, e as propriedades antibacterianas foram apenas uma coincidência. Também pode ter sido uma forma de proteger a ferida contra moscas. Portanto, não se sabe ao certo o que o orangotango estava pensando ao se medicar, mas o que se sabe é que não foi aleatório: a planta medicinal foi aplicada no ferimento com alguma intenção.

Os estudos sobre automedicação em animais, especialmente em grandes primatas como os orangotangos, revelaram insights fascinantes sobre a consciência e a capacidade desses de buscar tratamentos para suas próprias condições de saúde. O caso do orangotango no Parque Nacional Gunung Leuser, que aplicou conscientemente uma planta medicinal em seu ferimento, sugeriu um nível de consciência e intencionalidade que desafia conceitos anteriores sobre o comportamento animal.

No futuro, entender melhor esse tipo de comportamento pode nos levar a reavaliar nossa relação com os animais e o ambiente natural. Poderíamos reconhecer mais claramente a inteligência e a sensibilidade desses seres e talvez repensar nossas práticas em relação à conservação e ao tratamento ético dos animais. A consciência animal, conforme evidenciada por esses estudos, pode ser um ponto de partida para uma maior compreensão e respeito mútuo entre humanos e outras espécies no planeta.