Puntos de vista

/ Publicado el 29 de agosto de 2021

Lado B por Celina Abud

A dor da morte na pandemia

A impossibilidade de realizar rituais de luto não apenas privou os membros da família da contenção coletiva, mas também tornou difícil encerrar uma história. Ao mesmo tempo, eles são afetados pelo fato de que as mortes são processadas como números. Países como o Chile já planejam iniciativas como compensação.

Autor/a: Celina Abud

As narrativas caracterizam-se por ter início, meio e fim. Mesmo que o desfecho seja aberto, abrupto e não prenuncie uma solução para o conflito - um exemplo iniciático é o conto "A Dama com o Cachorro" de Antón Chekhov - todos contam uma história. Fora da literatura e em nossas próprias experiências, usamos narrativas. Especialista em tecnologia, cultura e ética L.M. Sacasas explica no seu ensaio Narrative Collapse que “a narração é a nossa técnica determinada para dar sentido, em parte porque reflete a nossa existência fundamentalmente limitada no tempo”, para além de ser “uma forma de encerramento”.

"A aritmética é uma péssima história para a dor"

Quando se tratava de reportar sobre a COVID-19, as narrativas perdiam para as estatísticas, talvez porque não fossem vistas como adequadas para entender a complexa situação. Em suma, Sacasas enfatiza que a pandemia não pode ser comunicada apenas por números e gráficos, porque os números “contam” (computam), mas não “CONTAM” (narram) as dramáticas histórias pessoais que lhes dão sentido. Sem rodeios, ele diz: "A aritmética é uma péssima história para a dor."

Os números que prevalecem sobre as histórias e a impossibilidade de encerrá-las, como a despedida de um ente querido por meio de uma cerimônia ou ritual de luto, fica evidenciada na nota da jornalista argentina Gabriela Navarra, intitulada "Meu pai acabou de morrer." Escrito em maio de 2020, diz que, como seu pai estava com febre no dia em que ele morreu, a infecção por coronavírus teve que ser descartada para permitir que quatro pessoas o despedissem no cemitério. “A terça-feira toda passa sem novidades. Então, na quarta-feira, começo a ligar para o necrotério. O meu pai já não é Adolfo Alberto Navarra mas sim a autópsia 1053/2020 (…) Na terceira chamada, tarde da noite, confirmam que o esfregaço da autópsia 1053/2020 está em curso”. Após dias de espera e múltiplos procedimentos para retirada do corpo, fecha-se a nota: “Entende-se o motivo de todos os procedimentos. Estamos em uma pandemia. (...) Mas como é difícil que o destino ordenou que ele tivesse que sair agora. Que angustiante ter que ligar e ligar pedindo um número de autópsia quando ele era uma pessoa, uma das mais importantes da minha vida, e eu só quero ter a tranquilidade de poder me despedir e chorar por ele em paz."

A narração mostra como a morte de um familiar, por si só devastadora, vem acompanhada de mais duas dores: a do número que substitui uma história e que, com a possibilidade de não haver despedida, essa história pode não ter desfecho. Em seu livro The Disappearance of Rituals, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han diz que "se a vida é privada de qualquer possibilidade de ser concluída, ela termina na hora errada". E quando não há fechamento, a dor não se perpetua?

Já o teórico francês Roland Barthes dizia: “A cerimônia (...) protege como uma casa: algo que permite que o sentimento habite. Exemplo, luto”, ao qual Byung-Chul Han acrescenta que o rito fúnebre é aplicado como verniz sobre a pele, protegendo-a e isolando-a das queimaduras da morte do ente querido. “Onde os rituais não são realizados como dispositivos de proteção, a vida fica totalmente desprotegida”, diz ele.

Se falamos de falta de proteção, um estudo recente publicado na revista The Lancet em 21 países, mostrou que mais de um milhão de crianças sofreram a morte de um cuidador principal, incluindo pais ou avós encarregados de sua custódia, cifra que na Argentina se traduz em mais de 13.000. Em todo o mundo, o trabalho estima que uma criança ficará órfã a cada 12 segundos.

Os números são marcantes, mas não fazem jus à dor dessas crianças desprotegidas por perderem os pais e também desprotegidas porque, quando forçadas a não vivenciar o ritual ou a cerimônia de despedida, também ficaram sem as funções que esses momentos cumprem, as de se apoiar em alguém de sua família.

Mortes em uma pandemia entram em um banco de dados, que Sacasas explica, “são ferramentas para armazenar e classificar informações, elas são abertas e assimilam novos dados indefinidamente, enquanto as narrativas buscam um fechamento e, assim, estabilizam o significado”.

Muitos dos rituais vão para o Zoom, uma plataforma que ao invés de servir de realidade aumentada, se mostra como a opção possível até que nossa existência se assemelhe à vida como a conhecíamos. Byung-Chul Han diz que enquanto os rituais geram conhecimento corporificado, memória corporal e percepção cultural, a comunicação digital é desencarnada.

“Os sentimentos também participam dos rituais: mas seu sujeito não é o indivíduo isolado em si mesmo. Por exemplo, no rito fúnebre, o luto representa um sentimento objetivo, um sentimento coletivo. É impessoal. Os sentimentos coletivos nada têm a ver com a psicologia individual. No rito fúnebre, o verdadeiro sujeito do luto é a comunidade. (...)” diz e acrescenta que a depressão não ocorre em uma sociedade definida por rituais, porque nela a alma é absorvida e esses ritos contêm o mundo.

As antropólogas Laura Marina Panizo e Valérie Robin Azevedo também entraram nos duelos nos tempos de COVID-19 quando disseram que o tabu sobre os corpos da pandemia alienou parentes do contato próximo com seus entes queridos a caminho da morte e que, devido ao essencial distanciamento social, impedia-se o consolo e a compaixão conferidos pela configuração ritual. “Bem aí, quando chega a 'morte má' com seus tabus, percebemos a verdadeira ausência, o custo da solidão, por mais céticos que tenhamos sido em nosso passado sobre a importância da presença do corpo e do ritual”, eles escreveram.

Sem dúvida, a pandemia deixa consequências, nos pacientes, nas suas famílias e na sociedade como um todo, hoje segundo Sacasas, relegada a uma comunicação digital "sem comunidade", que perde rituais mundanos que vê no cinema, como a saudação um ao outro com um beijo ou pegue um elevador cheio. Esperançosos, ansiamos por voltar àqueles pequenos momentos que não sabíamos como ver. Inimaginável pensar como deve se sentir alguém que perdeu um ente querido e também a possibilidade de se despedir na hora certa.

Talvez como forma de compensação, a Associação Chilena de Radiodifusores (Archi) apoiou um grupo de terapeutas, psicólogos e profissionais de saúde mental que promoveu o “Dia de Condolências e Adeus”, no qual será realizado um memorial. Auditório que oficializará como um rito coletivo de solidariedade com as famílias que não puderam realizar uma cerimônia. A iniciativa busca conscientizar que “os mortos não são apenas números”. Mas também nos convida a pensar que a cura dos que sobrevivem não depende tanto de fatos que os números possam explicar, mas da possibilidade de não se fechar na dor, de não guardar tudo, mas de compartilhá-la e, pouco a pouco, deixando para lá.


*Celina Abud é jornalista científica da equipe da IntraMed.