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/ Published on August 23, 2021

O olhar dos especialistas em desenvolvimento infantil na América Latina

A ciência do comportamento nas políticas públicas

Um estudo da Intramed baseado na opinião de especialistas de mais de 2.000 profissionais de saúde que trabalham no desenvolvimento infantil

Author: Ailin Tomio, Martin Dottori, Eugenia Hesse, Daniel Flichtentrei y Agustin Ibanez

Fuente: Basado en BMJ Open Volume 11, Issue 8

Index
1. Texto principal
2. Referências Bibliográficas
Resumo

O conhecimento sobre as políticas públicas e as ciências comportamentais (conhecidas em inglês como behavioral insights, BI) pode ser fundamental para facilitar o acesso aos direitos e aos programas estaduais. Porém, como resultado de uma pesquisa realizada com especialistas em desenvolvimento e saúde infantil de toda a América Latina, constataram que esse conhecimento e sua utilização são muito baixos nesses profissionais.

No estudo, os autores utilizaram modelos de regressão para analisar diferenças individuais e localização geográfica em relação ao conhecimento dos especialistas.

Nossas variáveis ​​de resultado foram um índice de conhecimento de políticas públicas, um índice de conhecimento de ciências comportamentais e a percepção da eficácia, clareza e utilidade de um programa de políticas públicas projetado para intervenção.

Os resultados mostraram que:

Em geral, os profissionais de saúde e de desenvolvimento infantil possuem baixo conhecimento em ciências do comportamento e BI, sendo esse conhecimento modulado por diferentes variáveis ​​como idade, formação acadêmica, conhecimento de políticas públicas e localização geográfica.

Por meio de um ensaio clínico randomizado, os autores mostraram que o uso de princípios da ciência comportamental (também chamados de nudges) influencia a percepção da clareza e do impacto da comunicação de políticas públicas.

Esses achados são relevantes para nortear ações futuras dos órgãos governamentais e do setor terciário que buscam aprimorar os conhecimentos e as práticas dos profissionais do desenvolvimento infantil.

Apesar do baixo conhecimento das ferramentas da ciência comportamental, elas são robustas para melhorar o impacto dos programas de saúde mental.

Por que o conhecimento de políticas públicas e ciências da saúde comportamental é importante?

A América Latina apresenta um índice alarmante de crianças com desenvolvimento inferior ao dos países desenvolvidos, por não receberem recursos e estímulos adequados para garantir seu desenvolvimento cognitivo e socioemocional. As intervenções de especialistas em saúde e desenvolvimento infantil são cruciais para comunicar boas práticas e recursos necessários para aliviar esta situação.

As ciências do comportamento são disciplinas que estudam o comportamento humano e, como tal, podem ajudar os profissionais de saúde a melhorar a adesão aos tratamentos e comportamentos recomendados em seus pacientes. Na verdade, essas técnicas (também conhecidas como behavioral insights) já foram usadas e testadas em vários estudos envolvendo comportamentos médicos e de saúde. Por exemplo, existem estudos que mostram que essas ferramentas podem melhorar a prescrição de medicamentos, reduzir vieses diagnósticos, melhorar as práticas clínicas e promover decisões baseadas em evidências.

No entanto, o uso dessas técnicas e seus conhecimentos nos profissionais de saúde e desenvolvimento infantil ainda não foram sistematicamente investigados. No estudo, os autores abordaram diferentes dimensões do conhecimento dos profissionais de saúde na América Latina. Os fatores estudados foram: conhecimento de políticas públicas, conhecimento de ciências do comportamento, ferramentas que impactam a prática clínica e, por fim, a influência dessas técnicas em suas percepções de um programa simulado.

Métodos

Para o estudo, os autores utilizaram uma enquete e um experimento por meio de ensaio clínico randomizado. A primeira parte da avaliação foi a mesma para todos os participantes e coletou opiniões de profissionais de políticas públicas e ciências do comportamento.

A última seção da pesquisa incluiu 4 tipos de mensagens que foram atribuídas aleatoriamente a cada participante (Figura 1). Os dados foram coletados em plataforma digital e comunicados por meio da IntraMed entre março de 2018 e abril de 2019.

A amostra final foi de 2.003 indivíduos que responderam a toda a pesquisa de um total de 2.400 participantes (profissionais especializados em saúde e desenvolvimento infantil na América Latina). A média de idade foi 51,42 anos (D.P. 13,50) e 55,62% dos participantes eram homens.

A última seção da pesquisa continha a descrição de um programa de política pública de desenvolvimento infantil elaborado para os fins deste experimento. O mesmo programa foi desenvolvido de 4 maneiras diferentes para avaliar o impacto do uso dos princípios das ciências comportamentais, e uma única versão foi atribuída aleatoriamente a cada participante. Os princípios da ciência comportamental usados ​​em cada mensagem foram:

1. Mensagem 1: Controle - Foi usado um formato semelhante às comunicações atuais de programas em diferentes governos.

2. Mensagem 2: Simplicidade - O objetivo era simplificar a mensagem e usar uma linguagem mais próxima.

3. Mensagem 3: Norma Social - Buscou-se indicar que outros profissionais aderiram ao programa que estavam lendo.

4. Mensagem 4: Simplicidade, Norma Social e Informação Visual - Buscou-se que parte da mensagem fosse retratada em imagens que buscassem gerar empatia nos leitores.

Após cada mensagem, os participantes foram questionados sobre sua percepção quanto ao impacto, clareza e interesse em serem contatados para participar do programa.

Figura 1. Atribuição de participantes

Resultados

> Conhecimento do termo "Behavioral Insights"

A maioria dos participantes relatou não saber o significado do termo “Behavioral Insights” (Figura 2A). Participantes mais velhos, com maior conhecimento das políticas públicas e maior formação acadêmica, apresentaram tendência a ter mais conhecimento do termo (Figura 2 B).

> Conhecimento em Ciências do Comportamento

Em geral, os participantes demonstraram baixo conhecimento das ciências do comportamento. Participantes mais velhos, com maior conhecimento das políticas públicas, maior formação acadêmica e com localização geográfica no norte da América Latina apresentaram tendência a ter maior conhecimento na área.

> Eficácia das Ciências do Comportamento

A maioria dos participantes não apresentou uma opinião formada sobre a eficácia dessas ferramentas (Figura 2A). Porém, ao comparar as respostas afirmativas com as negativas, a maioria dos participantes considerou a disciplina como eficaz. Participantes mais jovens com maior formação acadêmica mostraram maior eficácia percebida (Figura 2 B).

> Utilidade das Ciências do Comportamento

A maioria dos participantes relatou não saber se a aplicação da ciência comportamental ao desenvolvimento infantil seria útil (Figura 2A).

Em geral, o estudo encontrou um conhecimento insuficiente dos participantes sobre as ciências do comportamento e sua utilidade e eficácia. Os fatores que modulam esse desconhecimento foram a idade, a formação acadêmica, o conhecimento de políticas públicas e a localização geográfica.

> Experimento (ensaio controlado randomizado)

Os participantes que receberam mensagens desenvolvidas com os princípios das ciências do comportamento mostraram uma tendência a considerar o programa de políticas públicas mais claro e com maior impacto. Quanto mais princípios forem usados, maior será o efeito sobre essas variáveis. Em termos de localização geográfica, encontramos maior impacto, clareza e interesse percebido para os participantes do norte da América Latina.

> Impacto

Em termos de impacto, verificou-se que o grupo controle foi o que atribuiu o menor impacto à mensagem, enquanto o grupo que recebeu a mensagem de simplificação, norma social e informação visual apresentou maior percepção do impacto do que o grupo apenas simplificação (Figura 2C).

> Clareza

Em relação à clareza, encontrou-se padrões semelhantes, sendo o grupo controle aquele que atribuiu a menor clareza à mensagem.

> Interesse em ser contatado

Por fim, em termos de interesse, as diferenças foram menos fortes. Embora não tenham sido encontradas diferenças significativas entre os grupos, foram encontradas diferenças significativas ao ser contatado de acordo com a localização geográfica, com maior interesse nos participantes do norte da América Latina (Figura 2C).

Figura 2. Políticas públicas para o desenvolvimento infantil. A. Proporções de respostas sobre o conhecimento do termo Behavioral Insightss, a eficácia percebida do campo e a utilidade percebida do campo. B. As interações dos resultados em relação à idade, formação acadêmica e índice de conhecimento de políticas públicas. C. Resultados da intervenção experimental em termos de impacto, clareza e interesse percebido.

Relevância do estudo

Os resultados das opiniões de especialistas em desenvolvimento e saúde infantil apontam para um desconhecimento das ciências do comportamento e uma falta de opinião formada sobre sua utilidade e eficácia aplicadas ao desenvolvimento infantil. Vários fatores parecem modular o escopo e a especificidade dessa lacuna de conhecimento.

Idosos, com maior formação acadêmica e do norte da América Latina apresentaram maior conhecimento da disciplina, embora os participantes mais jovens tenham sido os que atribuíram maior eficácia.

Por fim, nas intervenções com os princípios das ciências do comportamento, os resultados mostraram maior clareza e percepção de impacto para os tratamentos em relação ao material de controle.

Acredita-se que os resultados são muito relevantes para o desenvolvimento de programas governamentais e organizações não governamentais da região com um quadro de ação que visa melhorar o diagnóstico, a investigação e a intervenção no desenvolvimento infantil na perspectiva desta nova disciplina.

Conclusão

O estudo com profissionais que atuam no desenvolvimento infantil na América Latina evidenciou uma lacuna de conhecimento sobre a utilização das ciências do comportamento na área, o que pode impactar na implantação de programas públicos.

Além disso, as intervenções baseadas nos princípios da ciência comportamental demonstraram uma abordagem eficiente para melhorar a comunicação de políticas públicas no campo.

De maneira geral, os resultados podem ajudar a identificar os principais fatores relacionados às necessidades de conhecimento dos profissionais, auxiliando os governos a otimizar a implementação de suas políticas públicas.


Financiamento: Este trabalho foi financiado pela Intramed, bem como doações da Associação de Alzheimer GBHI ALZ UK-20-639295; Banco Interamericano de Desenvolvimento e MULTI-PARTNER CONSORTIUM TOEXPAND DEMENTIA RESEARCH IN LATIN AMERICA [ReDLat, com o apoio de NIH / NIA R01 AG057234), Alzheimer Association (SG-20-725707), Tau Consortim e Global Brain Health Instituto (GBHI))]. O conteúdo desta publicação é de responsabilidade exclusiva dos autores e não representa as opiniões oficiais dessas instituições.