| Introdução |
A dieta mediterrânea (MD) é caracterizada por uma alta ingestão de grãos integrais, frutas, vegetais, nozes e sementes. Peixes e frutos do mar, aves e laticínios são consumidos com moderação. O azeite de oliva é a principal fonte de gordura. Há evidências que indicam que a sua adoção pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares, diabetes e câncer, graças às propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias de seus alimentos.
Existem várias características da MD que podem promover a saúde intestinal. Altas quantidades de fenóis demonstraram ter propriedades anti-inflamatórias. Além disso, foi associada a um aumento na abundância de microbiota produtora de ácidos graxos de cadeia curta, que ajudam a manter a função adequada do epitélio intestinal.
A síndrome do intestino irritável (SII) é uma condição comum que afeta aproximadamente 4% a 11% da população global. A sua patogênese é multifatorial, refletindo uma combinação de vários fatores do hospedeiro e ambientais. Não apenas a dieta contribui para a manifestação da SII, mas a maioria dos pacientes identifica alimentos como desencadeadores de seus sintomas.
Embora a MD seja uma dieta bem equilibrada, ao contrário das mais restritivas, poucos estudos examinaram a sua associação com a SII. Por isso, Chen e colaboradores (2023) realizaram um estudo com o objetivo de avaliar essa relação, identificar componentes da dieta associados aos sintomas da doença, e determinar se a modificação dietética de acordo com os sintomas estava associada a alterações na microbiota intestinal.
| Métodos |
No total, 106 participantes com SII, segundo os critérios de Roma, e 108 participantes saudáveis como controle completaram questionários sobre histórico alimentar e sintomas gastrointestinais. Os participantes com a doença preencheram questionários validados relacionados a sintomas gastrointestinais, incluindo o Questionário de Sintomas Intestinais e o Sistema de Escore de Gravidade da Síndrome do Intestino Irritável (IBS-SSS). Também responderam à questionários adicionais, incluindo o Índice de Sensibilidade Visceral (VSI), que mede a ansiedade relacionada a sintomas gastrointestinais, e a Escala de Ansiedade e Depressão Hospitalar, que mede os sintomas atuais de ansiedade ou depressão.
A adesão à MD foi medida usando a Avaliação Alternativa da Dieta Mediterrânea (aMED, sua sigla em inglês) e o Rastreador de Adesão à Dieta Mediterrânea (MEDAS, sua sigla em inglês). A análise de mínimos quadrados parciais esparsos identificou alimentos da DM associados aos sintomas da SII. Amostras de fezes foram coletadas para sequenciamento do gene 16S do RNA ribossômico e análise da composição microbiana em indivíduos com SII.
| Resultados |
Os participantes dos grupos foram semelhantes em relação à idade, sexo, índice de massa corporal e raça. No entanto, os com SII apresentaram escores mais altos na Escala de Ansiedade e Depressão Hospitalar e foram mais propensos a consumir uma dieta restritiva do que os controles.
Não houve diferenças significativas nas pontuações médias do escore aMED e MEDAS entre os participantes. Também não foram observadas associações significativas entre a adesão à MD e os sintomas gerais da doença, dor abdominal, inchaço, VSI e IBS-SSS. Em termos de qualidade da dieta, as pontuações aMED e MEDAS foram positivamente associadas às pontuações do Índice de Alimentação Saudável Alternativo.
Para os grupos de alimentos pró- e anti-MD, os participantes com síndrome do intestino irritável, em média, consumiram menos feijões em comparação com os controles. Além disso, o consumo de frutas foi associado a uma maior dor abdominal, inchaço e pontuação no IBS-SSS; e o de vegetais foi associado a pontuações mais altas no VSI. No entanto, uma maior ingestão de feijões, legumes e soja (pró-DM) foi associada a menores sintomas gerais e pontuações no IBS-SSS, mas não ao VSI.
O consumo de grupos alimentares anti-MD, como açúcar adicionado, foi associado a pontuações mais altas de dor abdominal; e a maior ingestão de manteiga, cremes e margarina foi associada a pontuações mais altas de inchaço e IBS-SSS. Além disso, o aumento no consumo de alguns alimentos anti-MD(por exemplo, refrigerante, carne processada, produtos assados e cerveja) foi mais associado a menos sintomas da SII, enquanto o aumento de alguns alimentos pró-DM (por exemplo, melão, suco de cenoura, toranja, batata-doce e laranjas/tangerinas/clementinas) foi mais associado a maior manifestação da doença.
Por fim, não foram encontradas diferenças na diversidade beta entre os indivíduos com pontuações aMED altas, médias e baixas. No entanto, a mais alta foi associada a uma menor abundância de Faecalitalea, Streptococcus e Intestinibacter, e a uma maior abundância de Holdemanella do filo Firmicutes.
| Discussão |
O estudo corroborou que não houve diferença na adesão MD entre os participantes com síndrome do intestino irritável e os controles saudáveis. Além disso, embora o regime estivesse associado a uma maior qualidade da dieta, não foram encontradas correlações entre a à DM e os sintomas da SII. No entanto, quando foi analisada mais detalhadamente pelos seus principais grupos alimentares, os autores observaram que um maior consumo de certos alimentos pró- e anti-MD estava associado a uma maior gravidade dos sintomas da doença. Curiosamente, a análise mostrou que um maior consumo de vários alimentos pró-DM, como o melão, estava associado a uma maior gravidade dos sintomas da SII, enquanto uma maior ingestão de várias comidas anti-MD, como refrigerante, estava associada a uma menor gravidade dos sintomas.
A adesão à MD foi associada a mudanças positivas na microbiota intestinal. O estudo demonstrou que, quando aderentes a uma dieta modificada conforme os sintomas, os participantes apresentavam uma menor abundância de microrganismos potencialmente pró-inflamatórios, patogênicos e produtores de gás, como Faecalitalea, Intestinibacter e Streptococcus, e uma maior abundância do anti-inflamatório Holdemanella.
Apesar de ser uma dieta saudável, a MD não demonstrou benefícios na gravidade dos sintomas da SII. Estudos anteriores mostram que a dieta com baixo teor de FODMAP e a dieta tradicional para síndrome do intestino irritável do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados (National Institute for Health and Care Excellence) foram eficazes na redução dos sintomas.
| Conclusão |
O estudo demonstrou que a adesão à MD não foi maior em participantes com SII em comparação com controles saudáveis, nem esteve associada a sintomas menos graves da doença. Certos alimentos pró-MD foram associados a um aumento nos sintomas, possivelmente devido ao alto teor de FODMAPs. Pacientes com sintomas mais leves podem adotar uma abordagem mais liberal em relação à sua dieta, enquanto aqueles com manifestações mais graves podem precisar restringir certos alimentos anti-MD para amenizá-los.