A tricomoníase, causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis, é considerada a infecção sexualmente transmissível (IST) não viral mais prevalente e passível de cura no mundo. Essa infecção está associada a diversos desfechos adversos de saúde, incluindo complicações gestacionais, aumento do risco de aquisição e transmissão do vírus da imunodeficiência humana (HIV), além de contribuir para o desenvolvimento de doença inflamatória pélvica (DIP), infertilidade e câncer de colo do útero. A prevalência global de T. vaginalis entre mulheres (5,3%) é superior à de clamídia, gonorreia e sífilis combinadas.
Os sintomas "clássicos" da infecção por T. vaginalis incluem odor vaginal desagradável, secreção vaginal amarelada ou esverdeada, espumosa e com odor acentuado, cervicite macular (conhecida como "colo do útero em morango") e elevação do pH vaginal. Entretanto, uma proporção significativa de mulheres infectadas apresenta poucos ou nenhum sintoma, com apenas 11% a 17% manifestando os sinais característicos. Mulheres assintomáticas podem desenvolver sintomas dentro de seis meses, enquanto aquelas com sintomas podem experimentar manifestações adicionais, como prurido genital, disúria e dispareunia.
| Diagnóstico |
O diagnóstico da tricomoníase pode ser realizado por meio da microscopia de esfregaço do corrimento vaginal, que permite a visualização direta dos tricomonas móveis. Outros métodos incluem o teste rápido OSOM® (um tipo de teste POC, do inglês diagnosed at the point-of-care, com resultado em ≤10 minutos) e a cultura específica para tricomonas. Recentemente, testes moleculares de amplificação de ácidos nucleicos (NAAT), conhecidos por sua alta sensibilidade e especificidade, tornaram-se mais acessíveis, oferecendo resultados precisos em menos de uma hora; um exemplo notável é o teste AmpliVue™.
| Tratamento |
A classe principal de medicamentos utilizada para tratar Trichomonas vaginalis é composta pelos 5-nitroimidazóis, incluindo metronidazol, tinidazol e secnidazol. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e a Organização Mundial da Saúde anteriormente recomendavam uma dose única de 2 g de metronidazol oral como tratamento preferencial para T. vaginalis. No entanto, essa recomendação foi revisada com base em estudos recentes, passando a adotar um regime de tratamento de sete dias com metronidazol oral para mulheres, tanto infectadas quanto não infectadas pelo HIV. Esses estudos indicaram que os efeitos farmacocinéticos e farmacodinâmicos in vivo do metronidazol podem influenciar o fracasso do tratamento com dose única de 2 g, sendo necessária uma duração maior do tratamento para melhores resultados.
Duas hipóteses foram levantadas para explicar esses achados: (1) a competição pelo metronidazol oral com bactérias associadas à vaginose bacteriana (VB) na microbiota vaginal de mulheres infectadas por T. vaginalis; e (2) um acúmulo insuficiente dos metabólitos ativos do metronidazol quando administrado em dose única. Dessa forma, o regime de sete dias com metronidazol oral foi estabelecido como tratamento padrão para todas as mulheres, enquanto a dose única de 2 g de tinidazol oral continua como alternativa. Além disso, o secnidazol é aprovado pela FDA para o tratamento de T. vaginalis em adolescentes, adultos e homens com idade igual ou superior a 12 anos.
Após o tratamento, recomenda-se o reteste para T. vaginalis, preferencialmente por NAAT, para todas as mulheres sexualmente ativas entre três semanas e três meses após o término do tratamento, independentemente de seus parceiros terem sido tratados. Estudos recentes apontaram que o período ideal para o reteste por NAAT é de, no mínimo, três semanas após a conclusão do tratamento com doses múltiplas de metronidazol.
> Manejo de parceiros
Os parceiros sexuais de pacientes diagnosticados com T. vaginalis também devem ser tratados. Profissionais de saúde são orientados a considerar o tratamento presumido dos parceiros, uma abordagem que inclui a terapia acelerada de parceiros (EPT do inglês expedited partner therapy). A EPT permite que o paciente diagnosticado receba prescrições ou medicamentos para entregar ao parceiro, sem a necessidade de exame prévio por parte do profissional de saúde.
| Considerações futuras |
Apesar da ampla gama de estudos existentes, ainda são necessários esforços adicionais para investigar a importância da infecção assintomática por Trichomonas vaginalis. Isso é especialmente relevante devido à crescente disponibilidade de testes moleculares para o diagnóstico de T. vaginalis, incluindo opções que podem ser realizadas no ponto de atendimento. No que se refere ao tratamento, são indispensáveis dados atualizados sobre as taxas de resistência de T. vaginalis aos 5-nitroimidazóis, incluindo o secnidazol. Além disso, é fundamental esclarecer o papel do secnidazol oral no tratamento de infecções persistentes por T. vaginalis. Por fim, há uma lacuna significativa no conhecimento sobre a infecção por T. vaginalis em homens, particularmente no que diz respeito às opções de tratamento mais eficazes para esse grupo, que deve ser investigada.